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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

ORAÇÃO DO PAI NOSSO



Sondando a passagem
mais conhecida
Palavras que nos ajudam a viver em comunhão
com Deus

por José Carlos Ramos



 Qual a passagem bíblica mais  conhecida? Ao contrário do que inicialmente se poderia imaginar, não é o Salmo 23 ou João 3:16. Essa passagem é tão conhe­cida que muitos dos que nem mesmo lêem a Bíblia, ou a lêem muito pouco, proferem-na de memória. Enquanto que em quase toda a Bíblia Deus é quem fala a nós, na passagem mais co­nhecida somos nós que falamos a Ele. Em outras palavras, ela é urna oração.
Que passagem é essa? Se você pensou no “Pai Nosso”, acertou. Ele aparece em duas versões, a de Mateus 6:9-13 e a de Lucas 11:2-4. Estamos familiarizados com a primeira, prova­velmente mais original no conteúdo, enquanto a segunda, em sua versão reduzida, parece ser mais original ao contexto histórico. Meditemos um pouco nessa oração.

Oração escatológica Estudiosos do evangelho geralmente reconhecem o “Pai Nosso” como oração modelo pa­ra o tempo final. Uma oração escato­lógica não apenas por seu conteúdo, mas especialmente por ter sido ensi­nada por Aquele com quem os últi­mos dias chegaram.
Segundo Lucas, Jesus ensinou o “Pai Nosso” em atenção ao pedido de um discípulo. “Ensina-nos a orar co­mo também João ensinou aos seus discípulos” (11:1). Sabemos que pelo menos alguns (senão a maioria) dos discípulos de Jesus eram ex-discípu­los de João Batista, e é possível que aquele que Lhe fez o pedido fosse um deles, já que, ao pedir, mencionou o precursor e o fato de ter ensinado seus seguidores a orar. Nesse caso, o pedi­do se reveste de um significado espe­cial. O discípulo havia sido ensinado por seu antigo mestre, mas agora, se­guindo a Jesus, ele descobriu que a forma de orar ensinada por João não se adequava plenamente à realidade messiânica introduzida por Cristo.
João, na verdade, foi o último dos profetas da antiga dispensa ção, aquele que apresentou o Messias a Israel, e por isso mesmo o maior de “entre os nascidos de mulher”; Cristo declarou, todavia, que o menor membro da co­munidade messiânica era maior do que João (Mat. 11:11). Só o Messias poderia ensinar o modelo de oração apropriado para o tipo de pessoas que os discípulos eram e para a qualidade de tempo em que viviam. Esse mode­lo é precisamente o “Pai Nosso”

Estrutura e conteúdo A oração, co­mo a usamos, pode ser dividida em três partes principais: (1) uma invoca­ção, com três súplicas orientadas pelo pronome “tu” e possessivos corres­pondentes, diretamente direcionadas a Deus e relacionadas com Ele, e que assim, nao somente O colocam em primeiro plano, mas revelam, da par­te de quem ora, o empenho por Sua honra e reivindicação; (2) urna seção peticionária, contendo quatro súplicas orientadas pelo pronome nos e pos­sessivos correspondentes, através das quais aquele que ora revela sua total dependência de Deus para a satisfa­ção de suas necessidades materiais e espirituais; e (3) a doxologia final, na qual Deus é glorificado por Seu cará­ter e magnificência. Essa doxologia étida como não original. Ë verdade que os melhores manuscritos do Novo Testamento não a trazem, mas sua tradição é antiga, remontando ao tempo da produção do Didaché, um tratado cristão anônimo do princípio do II século. Essa obra registra a do­xologia que, possivelmente, tenha 1 Crônicas 29:11 corno pano de fundo. Além do mais, ela é condizente com a ênfase teológica de Mateus.
“Pai” corresponde ao aramaico abba, a forma delicada e afetiva de se referir ao genitor (mais ou menos co­mo o português papai). Aplicada a Deus, fala-nos de Seu amor e desvelo. Desde as páginas do Velho Testamen­to Deus é considerado o Pai de Seu povo (Isa. 63:16; 64:8; Jer. 3:4; cf Fxo. 4:22), mas é o ensino de Jesus que de­fine o caráter paternal de Deus com todas as suas implicações.
O “Pai Nosso evoca a singulari­dade da filiação divina de Jesus, no fa­to de que esta oração é exclusivarnen­te para os discípu]os e nunca para o Mestre; Ele é Filho de Deus num sen­tido em que ninguém o é. De fato, Ele Se dirigiu a Deus utilizando a forma absoluta “Pai’~ e ao anunciar Sua as­censão, declarou que subiria “para Meu Pai e vosso Pai” (João 20:17), distinto de “para nosso Pai”, que im­plica  filiação comum.
Nossa filiação divina, entretanto, só é possível através dEle (João 1:12). A Igreja é filha de Deus porque é uma com Cristo. Seus seguidores formam a comunidade messiânica, a comunidade dos filhos de Deus. Dai as palavras de abertura, Pai nosso, que lembram o fato de pertencermos a uma grande família e sermos todos irmãos (Mat. 23:8 e 9).
“Que estás no Céu”. Mais que a residência de Deus, “Céu” indica o Seu domicílio, a sede do Seu governo,
o local de onde Ele opera, cumprindo o Seu propósito.
“Santificado seja o Teu nome”. O nome de Deus é uma figuração do Seu caráter que tem sido viLipendiado desde o surgimento de Satanás, o grande acusador. Pedir que o nome de Deus sela santifica do é pedir que, si­multaneamente, o Seu caráter seja rei­vindicado e o inimigo desmascarado diante de toda a criação. Em outros termos, é pedir que Deus apresse a er­radicação do pecado. As duas petições seguintes reafirmam este anseio.
“Venha o Teu reino”. O reino da graça foi estabelecido na primeira vinda de Jesus. O reino por cuja vinda oramos é o da glória. Sob o reino da graça, o domínio de Deus é parcial; nem todos se rendem a Ele. Sob o rei­no da glória, todavia, haverá total har­monia com Deus, pois pecado e peca-dores terão passado. A volta de Jesus está diretamente envolvida aqui.
“Seja feita a Tua vontade assim na Terra como no Céu”, isto é, na Terra como é feita no Céu. A rebelião de Lú­cifer teve lugar no Céu, mas se transfe­riu para este mundo. O Céu, portanto, é o local onde a vontade divina é per­feitamente cumprida. Pedir que a Ter­ra se incorpore ao Céu no cumpri­mento dessa vontade, é pedir que Deus ponha logo um fim à rebelião, e tudo volte a ser como era antes do pecado.
“O pão nosso de cada dia nos dá hoje”. Quando o pecado se insurgiu neste planeta, nossos primeiros pais foram avisados que, “no suor do ros­to”, comeriam o pão (Gên. 3:19). Cla­ro que isto era parte do triste resulta­do da desobediência. Com o plano da redenção, entretanto, Deus afirma que Ele dá o pão aos Seus amados enquanto dormem” (Sal. 127:2). Isso ocorreu literalmente por 40 anos com a queda do maná no deserto. Assim o pão é uma dádiva divina, e devemos agradecer por ele. Cristo ilustrou esse fato nas duas ocasiões em que multi­plicou os pães, saciando multidões. Ao proferir o discurso sobre o pão da vida (João 6), deixou claro que o verdadeiro pão do Céu é o Pai quem dá (verso 32). Em seguida, apresentou-Se como sendo esse “pão”. No “Pai Nosso” pedimos, naturalmente, que Deus nos garanta o sustento diário do corpo, mas a idéia do pão espiritual também está presente.
“E perdoa as nossas dívidas...” A palavra “dívidas” evoca a idéia do ano jubileu, quando estas eram perdoadas e as propriedades penhoradas volta­vam aos seus antigos proprietários. Tudo isso nos fala do resgate provi­denciado na cruz, e aponta para o fu­turo próximo, quando o grande jubi­leu trará de volta a possessão perdida. Enquanto esse dia não chega, desfru­tamos um antegozo do jubileu em termos do perdão divino.
..assim como nós perdoamos aos nossos devedores:” Deus não nos im­põe a condição de primeiro sermos perdoadores para então nos perdoar; a medida do nosso perdão, porém, é proporcional à medida de como o esti­mamos. A parábola do credor incom­passivo (Mat. 18:23-35) indica não so­mente que o perdão de Deus é fruto exclusivo de Sua misericórdia (portan­to, não é motivado por nenhuma qua­lidade que pensamos possuir, salvo a nossa necessidade), mas também que precisamos ser enternecidos pelo per­dão. Se valorizamos o que Deus faz por nós, será impossível que em resultado do Seu perdão, não passemos a ser movidos por um espírito correspon­dente. É como Paulo ordenou: “Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai” (Col. 3:13).
Talvez, neste ponto, a oração do “Pai Nosso” indiretamente aluda ao fato de que todos “compareceremos perante o tribunal de Deus” (Rom. 14:10). Naquele momento, a efetiva­ção definitiva do perdão a nós já con­ferido dependerá de como permiti­mos que ele nos motive o procedi­mento hoje. Nos termos da quinta bem-aventurança. “bem-aventura­dos” os misericordiosos, porque al­cançarão misericórdia” (Mat. 5:7).
“Não nos deixes cair em tenta­ção’~ Com a chegada dos últimos dias, o inimigo tem sua ira aumentada, porque sabe “que pouco tempo lhe resta” (Apoc. 12:12). Isto significa em­penho redobrado para desencaminhar aqueles que se consagram a Deus. Os enganos finais serão os mais terríveis porque o diabo se voltará com carga total contra os seguidores de Jesus, numa última tentativa de destruí-los. Uma vez mais seus planos serão frustrados.
“Mas livra-nos do mal’~ Não so­mente dos perigos deste mundo mau, mas do próprio maligno, em sua nefasta obra de destruição. Ë evidente que Deus tem respondido a esta petição, operan­do milagres em favor de Seu povo em todo o tempo e lugar. Mas é inegável que potencia]mente fomos livrados do ma­ligno quando Jesus depôs Sua vida na cruz. Ali foi garantida a vitória que em breve alcançará a plenitude.
“Teu é o reino, o poder e a glória para sempre.” A doxologia reafirma o Deus todo-poderoso como Aquele que tem recursos para ouvir e atender nossa prece, tornando-nos triunfan­tes em Cristo. Se nEle confiarmos e por Sua graça permanecermos fiéis até o fim, participaremos de Seu rei­no, de Seu poder e de Sua glória.

Conclusão No mesmo Lugar em que a Bíblia afirma que “não sabemos orar como convém”, afirma também que o Espírito “nos assiste em nossa fraque­za” (Rom. 8:26). Certamente esta assis­tência inclui uma compreensão mais definida da Palavra de Deus, da qual decorre o fortalecimento espiritual.
Orar conforme a oração que o Se­nhor ensinou coloca-nos cm sintonia com Ele, pois esta é uma oração mo­delo. Ela se inicia com uma invocação do Deus verdadeiro, em que Seu no­me, Sua vontade e Seu domínio são lembrados e aceitos incondicionalmente; prossegue substanciando as súplicas daqueles que almejam íntima comunhão com Ele; e conclui com uma expressão de louvor e exaltação aos quais só Deus tem direito.
Esta oração insta-nos a orar na consciência do tempo em que vive­mos e na certeza de que nossa reden­ção final está próxima. Então, sim, tu­do o que o “Pai Nosso” encerra terá al­cançado pleno cumprimento.

José Carlos Ramos é diretor do SALT e professor de Teologia no IAE-Campus 2,
Engenheiro Coelho, SP.



Revista Adventista      setembro/2000

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