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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

OUVIDO SENSIVEL




           Ouvido sensível
                É importante ouvir a Deus, ao próximo e a si mesmo

“O medo de ficar em silêncio se deve  ao temor de enfrentar  os subterrâneos mais profundos de si mesmo”

Augusto César Maia é psicólogo clinico em Campinas, SP.

A correria do dia-a-dia é uma caracte­rística que define bem a condição do ser humano atual. Procurar en­tendê-la é um modo racional de perceber os sinais dos tempos em que vive­mos, a fim de poder descobrir uma forma de ajudar aqueles que vivem escravizados pelo cotidiano repetitivo que privilegia as exigên­cias externas que o mundo e a convivência com o outro lhes impõem.
Na busca da realização de nossas metas, so­mos constantemente estimulados ao exercício de atitudes cujos objetivos estão fora de nós, e gradativamente vamos nos habituando a pensar e agir sem levar em conta o que está se passando em nosso “mundo interior”.
Talvez o drama do homem moderno con­sista em não saber que tem uma vida interior. Quem é? Por que não consegue fazer tal coi­sa? Qual é a sua função neste planeta? Por que existe? Neste inicio de século, temos ob­servado que o homem, esse desconhecido, tem profunda dificuldade de ficar em silêncio para poder ouvir seu próprio coração.
Aliado a isso existe um desconhecimento profundo do Outro. Somos tão egocêntricos, tão egoístas, que nos incapacitamos para ou­vir os outros. Não sabemos ouvi-los (ficar em silêncio); conseqüentemente, não queremos e não nos detemos para ouvi-los. Fazemos isso porque estamos tão fechados em nosso mun­do que não conseguimos perceber que neces­sitamos do outro. Imagine então nossa difi­culdade de ouvir a Deus, apesar de
orarmos cm nome dEle! Para saber falar, é impor­tante aprender a ouvir. E para ouvir, é preciso silen­ciar. Ficar em silêncio é uma terapêutica que compreende o ouvir. Ouvir a música da cria­ção e dela captar o teste­munho do amor de Deus. Ouvir o coração e a consciência, para me­lhor nos conhecer e diri­gir nossa própria vida. Ouvir os homens sábios, segundo Deus, para enri­quecer-nos com suas experiências e aprender a amá-los. Ouvir o Eterno, Sua palavra, Seu Espírito; receber Sua vida.
Ouvir é a arte de silenciar. Por isso, é preciso to­mar tempo para ficar em silêncio. Tempo de puri­ficar o coração como se desintoxica um toxicôma­no. A transformação é primeiramente interior, de­pois exterior. Silenciar é uma necessidade que sur­ge de dentro para fora. E como o desabrochar de uma flor. E é Deus quem cria dentro de nós a ne­cessidade de, aos poucos, abrirmos, desabrochar­mos para a nossa verdade e o real valor da vida.
É preciso olhar para si mesmo, ficar quieto, a sós, conhecer-se, auto-analisar-se. Assim, o ser humano assume sua pobreza e se abre ao amor de Jesus. O silêncio funciona como um espelho. Promove o encontro com alguém que você não pode deixar de enfrentar: você mes­mo. Ë por isso que há muita gente que entra em pânico com a simples perspectiva de ficar sozinho num fim de semana. O medo de ficar em silêncio se deve ao temor de enfrentar os subterrâneos mais profundos de si mesmo.
Ficar em silêncio é simultaneamente tempo de provação e privilégio. Provação, porque pro­picia um encontro consigo mesmo, que pode ser angustiante, doloroso e conflitante. A prova­ção nos despoja de nossas máscaras, mentiras, suposta segurança e artificialismo. E tempo pri­vilegiado, porque não mais podemos dissimu­lar. Somos obrigados a assumir verdadeiramen­te nossa pobreza radical e finitude esmagadora, que obriga um replanejamento e reformulação de nossos conceitos e valores.
Essa experiência, se bem vivi­da, devolve o gosto pela vida, fa­zendo-nos sentir mais próxi­mos de nós mesmos, dos ou­tros e de Deus — e mais conscientes de nossa verda­deira fome e sede. Nessa experimentação perdemos as esperanças faceis de mu­danças mágicas. E essa de­silusão benéfica produz um futuro não ilusório, quimé­rico, incerto, mas sim um fu­turo que nos dá a certeza de maior convivência conosco, com o próximo e com Deus.

Sinais dos Tempos       Janeiro-Fevereiro/2002


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

AMOR VERDADEIRO



O amor verdadeiro
por Michelson Borges

        O  verdadeiro amor brota de uma relação viva com Cristo

Enquanto apresentava um estudo bíblico para um grupo de pessoas, um jovem fez uma declaração que me deixou pensativo: “Os adventistas são doutores em teologia, mas acho que ainda lhes falta entender o real sentido do amor.”
Ao dirigir-me para casa, lembrei-me das palavras de outros irmãos (alguns hoje, infelizmente, são ex) que igualmente alegavam haver falta de amor na Igreja. Imediatamente fui à Bíblia e li o “salmo do amor” — 1 Coríntios 13 —     em busca de uma resposta à pergunta: O que é esse amor que, dizem, nos falta?
Pela enésima vez li aqueles 13 versículos tão profundos. Com muito cuidado, pois, às vezes, corremos o risco de passar por alto conceitos importantíssimos pelo fato de já conhecer bem um texto. Algumas verdades se destacaram de imediato: (1) no verso 2 é dito que, ainda que possuamos qualquer dom espiritual, muito conhecimento científico e uma fé capaz de transportar montanhas, sem amor, de nada valem essas virtudes; (2) no verso 3, Paulo diz que, mesmo que distribuamos todos os nossos bens aos pobres e sejamos martirizados, sem amor, isso tudo de nada aproveita; (3) no final do capítulo, o apóstolo termina dizendo que o amor é maior que a fé e a esperança.
No entanto, o que realmente me chamou a atenção foram os versos 4 a 7. Há muitas semelhanças entre eles e o fruto do Espírito de Gálatas 5:22. Vejamos:
Tamanha coincidência não pode ser mera semelhança. O próprio amor é a virtude que encabeça a lista de Gálatas 5:22. E se o amor é um dos “gomos” do fruto do Espírito Santo, mesmo que nos esforcemos, jamais poderemos fabricá-lo. Não existem estratégias ou métodos que nos façam sentir amor pelos irmãos.
O amor provém do Espírito de Deus. Sem comunhão com Deus, portanto, não pode haver amor. O correto não seria dizer: “A igreja precisa de mais amor.” Isso, na verdade, é óbvio. Nossa maior necessidade no entanto, é da presença do Espírito Santo em nossa vida. De nada adianta uma adoração “animada” por palavras de ordem, ou barulho; assim como de nada adianta uma simpatia forçada de uns pelos outros, ao convite de “vamos apertar a mão de quem está ao nosso lado”. A alegria do louvor e a simpatia entre os irmãos só existirão na medida em que cada um buscar o Espírito de Deus.
Muitos abandonam a igreja alegando falta de amor por parte dos irmãos. Outros dizem que a igreja é muito “parada”, ‘‘desanimada’’, ‘‘morna’’. Não se daria o caso de haver falta do fruto do Espírito em suas vidas?
Após minha conversão, há quase dez anos, percebi que nem tudo era perfeito (com exceção das doutrinas) na igreja que eu amava e amo. Mas percebi, também, que o amor por Cristo e a convicção da verdade suplantam todo problema. Se amamos a Jesus e estamos convictos da verdade, nada, nem a alegada falta de amor, pode nos afastar de Sua igreja (afinal, se assim o fizermos, para onde iremos?).
O amor e a alegria fazem parte do fruto do Espírito. Precisamos do Espírito Santo habitando o templo do nosso coração. Mas, como fazer isso? O discípulo do amor nos dá
a resposta. Em sua terceira carta, João refere-se a Gaio, exemplo de fidelidade e amor aos membros da igreja, um homem que andava “na verdade” (verso 3). João menciona, também, Demétrio, de cuja vida a própria verdade dava testemunho (verso 12). Numa carta que trata da aplicação prática do cristianismo na vida individual, João associa o amor à verdade.
Isso é evidência inquestionável de que não pode haver amor na desobediência deliberada aos princípios bíblicos. Cristo mesmo disse: “Se Me amardes, guardareis os Meus mandamentos.” João 14:15. Veja: amor e obediência à verdade, uma vez mais, de mãos dadas. A verdade sem o amor é fria e formal, correta mas não cativante. O amor sem a verdade é mal orientado e desonesto. Por isso, ‘o mais forte argumento em favor do evangelho é um cristão que sabe amar e é amável”. —A Ciência do Bom Viver, pág. 470.
Obediência mediante a comunhão com Cristo: eis o segredo. Mantendo uma relação viva com Jesus, tornamo-nos participantes da natureza divina (1 Ped. 1:4), o que nos dá a capacidade de sentir um amor puro e desinteressado pelos outros. “Caso exista no coração a divina harmonia da verdade e do amor, resplandecerá em palavras e ações.” —    O Lar Adventista, pág. 426 (grifo acrescentado).
“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos tocaram, isto proclamamos com respeito ao Verbo da vida.” I João 1:1. Neste texto, o verbo “contemplar” (Theomai) é diferente do verbo “ver” (Horao). Contemplar aqui significa uma experiência compenetrada para descobrir algo ou alguém. Portanto, precisamos contemplar a Cristo mais do que fazemos, para que o Espírito de Deus tome posse de nosso coração e nos transforme a vida. Assim, “os pensamentos pecaminosos são afastados. renunciadas as más ações; o amor, a humildade, a paz tomam o lugar da ira, da inveja e da contenda. A alegria substitui a tristeza, e o semblante reflete a luz do Céu”. —     O Desejado de Todas as Nações, pág. 173.
Esse é o segredo do verdadeiro amor.

I Coríntios – O amor :                                        Gálatas 5:22 – O fruto do Espírito é :                                           

é benigno                                                                    benignidade
não se porta inconvenientemente                                 domínio próprio
não busca os seus próprios interesses                          bondade
não se irrita                                                                longanimidade
/ mansidão
regozija-se na verdade                                                fidelidade
tudo suporta, tudo crê, tudo sofre, tudo espera         paz
/ domínio próprio

Michelson Borges, editor associado                                                              
de livros didáticos da CASA.
 

Revista Adventista - dezembro-98 

MUDANÇA DE CARACTER



Mudança de caráter

O primeiro passo para uma vida diferente e reconhecer
o que está errado

“Pessoas imaturas mostram uma necessidade exagerada de afeto e de apoio”


Augusto César Maia é psicólogo clínico em Campinas, SP.

O caráter é a expressão do compor­tamento do individuo, e é mode­lado pelos pais e familiares, O modo de ser de cada pessoa de­pende muito das experiências e dos valores a que for exposto na infância.
Chamamos de “fase primária do ser huma­no” o período em que somos totalmente indefe­sos e dependentes dos pais. Biologicamente, es­sa dependência é concreta e necessária, tendo que ver com sustento. Psicologicamente, essa dependência inclui afeição, amor e aceitação.
Quando falta à criança esse “alimento” emocional, ela tem grande chance de se tor­nar um adulto frio e emocionalmente insatis­feito, dependente em extremo e incapaz de to­mar decisões sozinho. Por outro lado, a pes­soa pode demonstrar-se totalmente indepen­dente, o que na verdade não se sustenta em si­tuações de tensão.
Estamos falando de pessoas que permane­ceram em um estágio imaturo, em quem toda a força, afetiva e instintiva, parece voltada para uma só direção e dominada por uma única ne­cessidade: assegurar o amor e, através disto, manter o senso de segurança. Em outras pala­vras, são adultos com psique de crianças.
Os casos em que o padrão de comporta­mento se caracteriza por sentimentos de pri­vação, medo de perder o objeto do amor, va­zio interno e desespero são descritos na psico­logia como “caráter do tipo oral”.

Origem familiar — Pessoas com esse comporta­mento são comuns em lares em que o relacio­namento se caracteriza pela ausência de cari­nho e diálogo, pela frieza, crítica destrutiva e privação permanente; onde os pais são intole­rantes e tratam os filhos com rispi­dez e severidade.
Como mecanismo de prote­ção, a resposta emocional da criança apresenta-se com as se­guintes características: manifestam insegurança e incapacidade de rea­lizações. Podem se tornar “infan­tilizados”, com sintomas regressivos como medo irracional, isolamento, chu­par o dedo, irritabilidade, ciúmes, mentira, furto, ansiedade e tristeza.
A base psicológica desse tipo de caráter éuma força de vontade fraca. Quando se tornar adulta, essa pessoa vai preferir esperar tudo dos outros, sem fazer nada. Sua tendência se­rá sempre correr, fugir e esconder-se (em dro­gas, sexo ou fanatismo).
O  “caráter oral” é um tipo “dependurado”, Em casos extremos, suga as forças e energia de outra pessoa. Sua sensação interna é de um imenso vazio e sua expectativa é de que o mundo tem a obrigação de suprir as suas ne­cessidades.
A pessoa de caráter oral foi descrita porJe­sus na parábola do semeador (Lucas 8:4), co­mo o “solo cheio de pedras”. Ela recebe o evangelho com disposição, mas se mostra sem fé quando surgem as tormentas e tempesta­des, quando é preciso deixar a comodidade ou enfrentar uma experiência de abnegação.
Essa pessoa só aceita a realidade se lhe é fa­vorável. Caso contrário, desiste, até mesmo da fé. É o que primeiro abandona o barco, diante da ameaça de naufrágio. Como restaurar o ca­ráter nessa situação?
Mudanças só ocorrem depois que se conse­gue enxergar a si mesmo de forma legítima. E preciso reconhecer as deficiências cultivadas desde a infãncia, mas acreditar, ainda assim, que nem tudo está perdido. É na incapacidade do homem que está a capacidade de Deus. E nesse momento que a pessoa é levada a ques­tionar seu modo de ser e agir. Ao aceitar o psi­codiagnóstico de Jesus, estará pronta para ml­ciar uma psicoterapia com Deus. E aos poucos (uma boa terapia leva tempo) será uma pessoa transfor­mada. Nesse processo a vida humana pode reproduzir o próprio caráter de Cristo.


LIMITES NA CRIANÇA



Limites
A disciplina deve respeitar o ritmo e o tipo de personalidade da criança

“Disciplinar é comunicar o que é importante e estabelecer limites saudáveis para o comportamento”

Augusto César Maia é psicólogo clinico em Campinas, SP.

OS psicólogos costumam ouvir de­poimentos de mães que se quei­xam da ingratidão dos filhos. Elas afirmam que criaram todos da mesma maneira e no mesmo ambiente social, mas o filho problemático é o único que dá tra­balho. E fazem a fatídica pergunta: por que os outros filhos não tiveram problema?
A falta de conhecimento sobre a formação do caráter dos filhos gera situações assim. Al­gumas mães não sabem e não conseguem per­ceber que cada filho é único e deve ser trata­do de maneira única, Os pais querem amar to­dos os filhos igualmente e chegam a falar com orgulho que tratam a todos da mesma forma. Os filhos, todavia, não acreditam nisso e sen­tem a diferença, pelo simples fato de que, se cada filho é diferente, alguém não está sendo tratado como deve e merece.
Há enormes diferenças individuais entre uma personalidade e outra. Isso faz com que cada um sinta de maneira pessoal e única a in­fluência do meio familiar. A disciplina neces­sária para um filho pode esmagar o outro. Portanto, os pais precisam ajustar suas exi­gências ao ritmo natural de crescimento e de­senvolvimento dos filhos.
As crianças não nascem com a consciência do que podem ou não fazer. Cabe aos pais ensi­nar-lhes as regras do jogo. Toda família ou gru­po social tem padrões morais para o comporta­mento de seus membros, e esses padrões são transmitidos às crianças. A maneira pela qual os pais passam esses padrões (ou seja, disciplinam seus filhos) determinará a formação do seu ca­ráter. Vejamos quatro tipos de disciplina nor­malmente aplicados pelos pais:
1.  Autoritária. As ex­plicações para a disci­plina são: “Vai ter que fazer como eu quero, quem manda aqui sou eu!”, “Vai ter que fazer e pron­to!” Nesse tipo de disciplina, não exis­te respeito pela crian­ça. O medo é a base da
relação. Isso costuma ocorrer onde há desres­peito para com o próximo e a individualida­de de cada um. A criança, ao ficar submetida a um ambiente em que não existe apreço pela sua personalidade, desenvolve rim caráter cujo traço marcante é o medo de se entregar à vida, ao amor, ao semelhante.
2. Chantagista. Neste caso, os pais não se valem de punição física e nem são autoritá­rios, mas expressam sua desaprovação através de chantagens do tipo: “Você vai fazer isso, fi­lho? Ah, a mãe não vai mais gostar de você!” A mãe não só ameaça retirar o amor, como na verdade demonstra rejeição à criança, ao dar-lhe as costas ou ameaçá-la de abandono, O uso dessa disciplina está associado a um forte sentimento de culpa.
3. Permissiva. O problema deste tipo de dis­ciplina é exatamente a falta de disciplina. Não existe norma ou regra a ser seguida. Tudo é permitido, desde que a criança queira. Ela se torna o rei ou a rainha da casa. Isso transforma os filhos em verdadeiros tiranos, e os pais vi­ram simples súditos ou mesmo escravos, Os pais arcam com todas as conseqüências desas­trosas da liberdade excessiva, acobertando os erros dos filhos, suportando seus insultos, sa­tisfazendo suas inúmeras solicitações e, por fim, perdendo toda a influência.
4. Democrática. Os pais que adotam este tipo de disciplina têm o cuidado de conversar com os filhos. Num clima de liberdade, falam e dão explicações sobre as conseqüências posi­tivas e negativas das ações. A liberdade faz par­te da democracia. Os pais democráticos não podem perder de vista que a Liberdade exige respeito pela liberdade do outro. Para que to­dos possam ter liberdade, é preciso que haja
uma certa ordem, e toda ordem traz restrições e obrigações. A liber­dade implica responsabilidade.
Disciplinar é comunicar o que é importante e estabe­lecer limites saudáveis para o comportamento, vi­sando ao bem-estar, à segu­rança e ao crescimento do disciplinado.


Sinais dos Tempos       Julho-Agosto/2003

ESPELHO DO AMOR RECEBER E REFLECTIR O AMOR DE DEUS



Espelho do amor
Você deve primeiro receber o amor de Deus
para depois refleti-lo no mundo ao redor

“O amor de Deus está para o ser humano assim como  a luz do Sol está para a Lua”


Augusto César Maia é psicólogo clínico em Campinas, SP.
Todo cristão quer amar a Deus acima de todas as coisas. Ninguém ques­tiona o mandamento bíblico, O pro­blema está em saber o que é amar a Deus. Para uns, amar a Deus é cumprir os mandamentos à risca; para outros, é ser sub­misso à vontade de Deus; e ainda para outros, é ser estrito no cumprimento de normas reli­giosas e na prática de obras de caridade. Na sua opinião, o que é amar a Deus?
Vamos recorrer a Jesus em busca da resposta definitiva. Em Lucas 7:36-48, Jesus nos indica: “Quem tem pouco a ser perdoado sente pouco amor.” Isso quer dizer que quem tem muitos (numerosos) pecados ama mais a Deus? Não é isso o que Jesus está dizendo. Ele ensina que as pessoas que se reconhecem pecadoras (devedo­ras), pedem o perdão das suas dívidas (pecados) e têm capacidade de receber o perdão passam a estimar e a amar mais o Credor, na proporção direta da quantidade de perdão recebida.
Amar a Deus é ser capaz de receber, e não, como muitos pensam, de dar. Como posso dar se não quero receber? Como pode haver preenchimento se não quero receber algo para ocupar meu vazio? Como posso abrir o cora­ção se não quero receber ninguém dentro dele? Como vou abrir a porta da minha casa se não quero receber visitas? Quando não quere­mos receber ninguém, fechamos as portas.
A Bíblia deixa claro que só conseguiremos amar a Deus compreendendo e acei­tando que Ele nos amou primei­ro. Deus nos deu algo muito precioso corno presente. Se dou algo a alguém, essa pessoa tem que querer receber. Sem rece­ber, é impossível ter. Sem ter, não há como dar Para amar a Deus, é preciso receber aquilo que Ele deu: Seu Filho amado para morrer na cruz por nós. A natureza de Deus é dar. Deus deu Sua própria vida para provar que a Sua capacidade de dar é imensurável, ilimitada.
Se não recebemos esse amor ainda, significa que não somos ca­pazes de amar a Deus. Amar a Deus é ser capaz de receber Seu perdão, ou seja, Seu amor. Nos­sa capacidade de receber o perdão divino é pro­porcional á habilitação de perceber e confessar o quanto somos pecadores, doentes, necessita­dos e dependentes. Segundo Jesus, quanto maior o perdão, maior a gratidão e maior o amor pelo Doador do perdão. O tamanho do perdão não depende do tamanho do pecado, pois para Deus pecado algum é pequeno, mas da capacidade de aceitar e querer receber a cruz de Cristo, o amoroso perdão divino. Aquele que recebe o perdão, igual à mulher que Cristo perdoou, ama a Deus de todo o coração.
A esta altura, podemos afirmar que todos aqueles que amam a Deus guardam os Seus mandamentos, são obedientes é fazem a Sua vontade. Mas isso é conseqüência de amar a Deus. Eu não faço ou cumpro certas coisas para amar a Deus, mas porque amo a Deus O verbo amar vem primeiro.
Nós recebemos o amor e refletimos a dádiva. O que sai de nós é o reflexo do amor de Deus. O amor de Deus está para o ser humano assim como a luz do Sol está para a Lua, que apenas reflete a luminosidade do portador real de luz. O ser humano não é capaz de gerar amor, pois não é fonte, mas receptáculo. Não é matriz de seu próprio caráter, mas precisa de algo externo e superior para sua formação. Para termos o ca­ráter de Cristo, que é amor, necessitamos dEle. O amor refletido não é nosso. Apesar de estar em nós, não é nosso. O amor não é meu, a despeito de Deus ter-me dado, O amor não pode ser possuido como um bem mate­rial. Pode apenas ser desfrutado por quem o possui ou por aqueles ao redor, O amor é um dom. E no mundo espiritual, quando se dá algo, a dádiva não passa a ser propriedade de quem o recebeu. O ser humano não é capaz de dar o que não tem. Por isso, é preciso querer rece­ber e continuar receben­do o amor de Deus, para poder crescer no amor e refletir esse amor.


Sinais dos Tempos     Setembro - Outubro  2003

EQUILÍBRIO VITAL CONVIVER COM PERDAS


Equilíbrio vital
Saber conviver com perdas e ganhos é indispensável para alcançar maturidade

“A pessoa amadurecida tem coragem para se ver de forma honesta”


Augusto César Maia é psicólogo clinico em Campinas, SP.

A maturidade é o primeiro lugar sa­ber conviver da melhor forma possível com a maturidade.

É a capacidade do in­divíduo de se realizar, vivendo em paz, alegria e abnegação. Quando praticamos atos de justiça, coragem, tolerância, compaixão e humil­dade demonstramos amor verdadeiro. Essas ati­tudes manifestam maturidade, e mostram a rea­lização da vontade de Deus, em nós.
O   desenvolvimento espiritual é fundalmen­tal para a maturidade pois nos coloca em con­tato com Deus e com os outros, levando-nos a reconhecer quem e como nós somos realmen­te. A pessoa amadurecida tem coragem para se ver de forma objetiva e honesta. Estabelece uma relação saudável consigo mesma. Conse­gue distinguir o que gostaria de ser daquilo que de fato é. Sem essa condição todos corremos o risco de nos tornarmos imaturos. 
Pela incapacidade de aceitar a realidade é que existe grande número de pessoas imaturas (tímidas, orgulhosas egoístas). Intimamente, o indivíduo imaturo esconde um medo de olhar a verdade e relacionar-se consigo e com outros. O imaturo, na realidade, esconde tam­bém uma enorme falta de fé e de esperança.
Quem tem fé, esperança e confiança em Deus pode lidar melhor com as diferentes si­tuações da vida. A pessoa madura encara as dificuldades e acredita que o mundo sempre estará cheio de possibilidades para superá-las.
Confia que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rom. 8:28). Portanto, o amadurecimento é fruto do amor de Deus no coração humano.

Perdas e ganhos —   A vida é repleta de situações de perdas e ganhos. Diante dessa realidade, pode­mos afirmar que um importante passo em dire­ção à maturidade será equilibrar essas duas situa­ções. Viver apenas para ganhar á urna recusa ao crescimento emocional. Por isso, a aceitação das perdas á condição essencial para amadurecer.
A partir do pecado de Adão e Eva todos passamos por dores e sofrimentos inevitáveis, pois foi perdido o privilégio de viver no Paraí­so criado por Deus. A pessoa amadurecida é consciente de que uma das condições para  re­cuperar o Paraíso perdido é o restabelecimento do contato com a realidade dolorosa da perda, e a aceitação das boas novas.  E qual é a boa notícia que Deus nos traz? E o sacrifício (perda) de Seu filho por nós e Sua ressurrei­ção (ganho), pela qual somos resgatados para a vida eterna. Qualquer meio para reparar a perda do Paraíso, que não seja através do amor de Deus, é um engano.
A maturidade nunca será completa se não conseguirmos manter o equilíbrio entre perdas e ganhos. Por isso não devemos ensinar nossos fi­lhos somente a ganhar. Essa não é uma atitude madura, pois a vida não se restringe a ganhos.
Este tipo de educação produz pessoas com urna visão egocêntrica do mundo. Elas serão relutantes em aceitar a realidade e a necessi­dade da luta pela vida.  Sua tendência será sempre fugir,  se esconder nas drogas,  no sexo,
no trabalho, no fanatismo ou no poder. Não terão capacidade para enfrentar as situa­ções difíceis. Por isso a pessoa egoísta e orgulhosa á imatura. A tônica de suas relações interpessoais á uma só: ganhar.
A verdadeira educação deve caminhar em direção ao equilíbrio entre perdas e ganhos. Devemos ensinar os filhos a con­siderar perda como uma oportunidade de crescimento. Pois, somente dessa ma­neira poderão conservar o equilíbrio quando vierem as frustrações da vida.


Sinais dos Tempos     Julho-Agosto/2000

MAL DE HUMOR A DEPRESSÃO



Mal do humor
Saiba como ajudar alguém que sofre de depressão

“As pessoas com depressão necessitam ser amadas, e não criticadas”.

Augusto César Maia é psicólogo clinico em Campinas, SP.

Você já se sentiu triste, cansado por qualquer coisa, mal-humorado e sem vontade de fazer nada, até mesmo as coisas que normalmente mais o entusiasmam? Já se viu numa situação onde tudo é sem graça? Onde seu sono e ape­tite estão perturbados? E a sua concentração ficando reduzida? E você desistindo da vida?
Pois é, esses sintomas específicos e compor­tamentos discrimináveis caracterizam urna doença que a psiquiatria classifica como depres­são. A depressão compõe o conjunto de trans­tornos do humor. A característica primária e dominante é a mudança dos afetos. Consiste no surgimento de um sentimento generalizado de tristeza, cujo grau pode variar desde um desa­lento moderado até ao mais intenso desespero.
O deprimido desqualifica-se, sente-se inútil e culpa-se por suas deficiências, acreditando que nada pode fazer para melhorar seu estado. Ocorrem crises de choro, perda de peso, insônia, ausência de paladar, o sexo não o excita e as outras pessoas tornam-se desinteressantes. E, para piorar, vem o irmão de fé bem-inten­cionado, mas mal preparado, tentar ajudar e fulmina: “Irmão, ânimo! Como pode um cris­tão ficar assim deprimido? Isso é falta de fé.”
Esse tipo de “ajuda” realça a doença, em vez de gerar recuperação. Em situações como essa, as pessoas com depressão tendem a fazer uma avaliação a partir de uma perspectiva negativa e autocrítica. Acentuam o fracasso e desvalorizam o sucesso; culpam-se a si mesmas, em vez de às circunstâncias; e os pensamentos ne­gativos ocupam um lugar domi­nante na consciência.
Se realmente desejarmos ajudar uma pessoa depressi­va, não devemos tratá-la como no exemplo menciona­do, mas tentar compreendê-la, saber que é muito dolorida a depressão, e que ninguém fica assim porque quer.
As causas da depressão ain­da não são bem definidas. Acredita-se que o despertar das crises aconteça devido à soma de múltiplos fato­res. Para os psicanalistas, a depressão é interpretada corno urna reação à per­da. Basta um acontecimento brutal, inesperado, para que sirva de gatilho. Por outro lado, evidên­cias crescentes indicam que nossos humores são regulados pelas nossas células cerebrais. Nesse caso, a depressão está associada não à deficiência de fé, mas à de um dos neurotransrnissores.
Deus não quer ver ninguém doente, é cla­ro, mas Ele compreende e respeita a situação doentia dos Seus filhos. Deus é o nosso Psicó­logo, e nos deu a Bíblia, um valioso e inesgo­tável manual de psicologia, para que possa­mos cuidar de nós mesmos e do nosso próxi­mo. Em Eclesiastes 7:3, Salomão diz que a tristeza é melhor do que o riso, ‘~porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração”. Grande é a sabedoria bíblica; pena que só queiramos ficar no “sempre alegre”.
Ora, mas que psicólogo é esse que, quando eu me achego a ele sorrindo, sentindo-me bem, ele pede para eu sair de lá chorando e triste? É di­fícil para o ser humano entrar em contato com a sua tristeza. Por isso, é sempre mais fácil masca­rá-la com o jogo do “sempre alegre”. E, ao nos encontrarmos com alguém depressivo, tentamos demovê-lo de seu estado, pois seu desalento pode fazer com que a nossa tristeza venha à tona.
Muitas pessoas fogem da dor e da tristeza como se temessem ficar aprisionadas por elas. Mas é justamente enfrentando o mal-estar de certas situações que aprendemos a decidir, a optar, e assim retomamos as rédeas, encon­trando o caminho da cura.
  Pesquisas recentes têm mostrado que o grau de suscetibilidade e vulnerabi­lidade do individuo depressivo tem relação direta com o quan­to ele se sente ou não amado, digno de receber amor e segu­ro em suas relações afetivas.
Por isso, as pessoas com de­pressão necessitam ser amadas, e não criticadas. Quando são amadas, ficam fortalecidas, se sen­tem seguras e dispostas a fazer algo que faça sentido, que ajude a conferir um sen­so de dignidade e valor pessoal. Ao dar os primeiros passos em direção à cura, a pes­soa criará forças e perceberá que é capaz de crescer e sair do processo depressivo.


FUJA DA IMPURZA




Dados para a Interpretação do texto de 
I Coríntios 6:18



“Fugi da impureza! Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer, é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo”. – João Ferreira de Almeida, edição revista e atualizada no Brasil – 1990.

Grifadas as palavras impureza e imoralidade de propósito, para destacar em que esses termos,  cuja significação é largamente abrangente, nos podem ajudar a entender o texto supra citado.
A tradução, dada acima, é aceita e aprovada por teólogos e pregadores adventistas.

Recorremos a outras traduções:

1.     Editora Ave Maria, S.Paulo = “Fugi da fornicação... o impuro peca contra seu próprio corpo.”
2.     Tradução dos Monges de Taizé, 1969 = “Fugi da prostituição! O que pratica a prostituição peca contra o próprio corpo.
3.     Em espanhol, Casiodoro de Reina (1569) = “Huid la fornicación El que fornica, contra su propio cuerpo peca. El que se junta con una ramera es echo con ella un cuerpo, los dos en una carne.” (V.18 e 16).
4.     Em inglês, da American Standard Edition of 1901 = Flee fornication . He that committeth fornication sinneth against his own body.”
5.     Em francês, par Louis Segond – La maison de la Bible – 1949 = “Fuyez lìmpudicité…mais celui que se livre à lìmpudicité pèche contre son propre corps.”
6.     O Comentário Bíblico Adventista nos dá a informação de que a palavra fornicação é derivada do termo grego pornéia que se aplica a todas as formas de relações sexuais ilícitas. E acrescenta: “A impureza e a complacência com a imoralidade preparam o caminho para a prática do pecado. A única atitude segura, ao vir a tentação para qualquer ato ou pensamento pecaminoso é a fuga física ou mental. A tentação para fornicar é sempre sutil e insinuante, mas a única saída para o cristão é fugir da tentação.
7.     Temos de admitir que só estará livre da corrupção quem não der abrigo a pensamentos imorais. Só estará seguro contra o pecado da imoralidade aquele que evita olhar e demorar-se olhando a todo e qualquer objeto que possa sugerir um pensamento impuro.

8.     Textos referenciais: II Samuel 11:2-4; Jó 31:1; Provérbios 6:23-26 e Mateus 5:27-29.

COMPORTAMENTO ARTIFICIAL


Comportamento artificial

A pessoa que tenta ser o que não é precisa da terapia divina

“Esquadrinhar a alma par ver o que ela tem de melhor e pior é tarefa difícil e dolorosa”


Augusto César Maia é psicólogo clinico em Campinas, SP.

A palavra “natural” quer dizer “original”, que não tem a intervenção humana, que segue a ordem regular das coisas, que está como foi criado, O ser humano na­tural, como foi criado, é aquele que não sofr eu   in­tervenção, que segue a ordem regular das coisas, unido ao Criador. Porém, não somos mais seres hu­manos naturais; o pecado desfigurou a criação.
O homem desejou ser igual ao Criador, não no caráter, mas em poder infinito. Desejou ser uma coisa que não é. Por isso, ficou em desar­monia consigo mesmo e com o seu Criador. Tornou-se artificial.
“Artificial” quer dizer não natural, dissimula­do, disfarçado, O ser humano artificial não aceita mais a condição de criatura mortal, falível, limita­da. Suas pretensões vão às raias do imponderável:
ser como o Criador. No momento em que ele sai do prumo posto por Deus, para atingir um plano impossível, cria interna e externamente divergên­cia, desarranjo e desequilíbrio, cujo seguro resul­tado é o que chamamos de doença.
O conceito de doença aqui apresentado não se reduz ao aspecto biológico. Incorporamos também os aspectos psicológico, social e prin­cipalmente espiritual.
A pessoa artificial é aquela que esconde a sua verdadeira condição. Vive em estado doentio, neurótico e rastejante.
O ser humano pós-moderno, infelizmente, assimilou todo esse complexo artificialista. Ama a superfluidade, as exterioridades, as coisas des­te mundo. Por isso, tem uma brutal dificuldade de enxergar a si mesmo e admitir defeitos. Es­quadrinhar a alma para ver o que ela tem de me­lhor e pior é tarefa muito difícil e dolorosa.
Desse modo, passa­mos a vida dentro dos estreitos limites de nossos potenciais e capacidades, to­mando todos os cuidados que jul­gamos necessá­rios para reprimir e manter os conflitos, mágoas e rancores sob controle.
Pagamos, por conseguinte, um preço muito alto para poder, em nome do medo da dor, viver uma vida artificial, O recurso de negar a realidade não nos parece um ato patológico, pois o poder dessa ação está na sua capacida­de de aliviar a dor. Por isso, este caminho pas­sa a ser uma atitude “sensata”, ‘necessária” e desejada. Produz uma sensação artificial de felicidade e segurança.
Admitamos que o processo de recuperação não é fácil. Porém, quando alguém começa a compreender sua própria miséria e nulidade, quando conhece seus próprios defeitos de ca­ráter, quando abandona os delírios de grande­za, cria-se então a condição propícia à ação te­rapêutica de Deus.
Nesse momento, somos impulsionados na direção de Jesus, e Ele nos instruirá e execu­tará o processo de restauração da vida, fazen­do perecer aquilo que por nossas próprias es­colhas e esforços não conseguimos remover. Ele produzirá em nós o Seu caráter, através de um processo psicoterapêutico divino.
As primeiras sessões são doloridas, porque esses materiais inúteis estavam dentro de nós havia muito tempo. Aderiram à pele da perso­nalidade. Jesus sabe disso e os remove cuidado­samente, no ritmo de cada pessoa, usando as ferramentas adequadas a cada caso. Em uma pessoa, Ele usa uma pequena pá; em outra, po­de ser que a camada seja tão grande e compac­tada que é necessário o uso de escavadeira.
Precisamos saber que a terapêutica de Deus é um processo lento, de uma vida toda, mas seguro e eficaz. Cristo vai retirando de nós o pos­tiço, o disfarce, a fachada e nos tomando mais ver­dadeiros nas emoções, pensamentos e relaciona­rnentos (com Deus, com nós mesmos e com os outros). Conseqüente­mente, a vida vai mu­dando, os gostos vão se modificando, tudo marcha em direção ao crescimento, à vida, ao que é natural.


Sinais dos Tempos           Março-Abril/2001

CONFIANÇA INTERIOR



Cobrança interna

O sentimento de culpa é uma corrente que prende muitas pessoas aos seus fracassos

“O Sentimento de culpa é a cobrança interna por não sermos perfeitos e a punição cometida”

Augusto César Maia é psicólogo clínico em Campinas, SP.

O sentimento de culpa, responsável por grande sofrimento psicológi­co, é uma cobrança mortal que a pessoa faz a si mesma por ter co­metido algum erro que não deveria ter prati­cado. A culpa causa o ódio por si mesmo e, com isso, a autopunição e o desequilíbrio emocional. Achamos que, se nos culparmos o suficiente, poderemos mudar nosso passado e conseqüentemente o futuro. Na verdade, ne­nhuma quantidade de culpa tem o poder de mudar o que já aconteceu.
A culpa é um sentimento que não nasce dentro de nós; ela precisa ser colocada por ou­tra pessoa, para ser internalizada. E semeada no terreno da infância por nossos pais ou os adultos responsáveis. Ainda hoje é comum os país punirem os erros dos filhos com ameaças de falta de amor ou proteção. Assim, os filhos começam a se culpar e manifestam atitudes au­topunitivas. Eles se convencem de que, se estão sofrendo, é porque merecem. Estão pagando por aquilo que fizeram. Depois, vem a angústia que não lhes deixa fazer mais nada, a não ser fi­car remoendo o passado e alimentando a culpa.
Embora alguns pais afirmem para os filhos que errar é humano, muitos demonstram no dia-a­dia, através do exemplo, que é errado errar. Em­bora digam que a perfeição não existe, continuam a ter uma atitude de tortura e de punição para com os filhos por não corresponderem a um ideal perfeccionista do qual não querem abrir mão.
A culpa é um sentimento que emerge des­sa crença de que é errado errar, que devemos ser castigados pelas faltas cometidas. E a crença de que a cada erro deve corresponder necessariamente um castigo, a cobrança in­terna por não sermos perfeitos e a punição que damos a nós mesmos pela imperfeição cometida. O ser humano, criado ori­ginariamente perfeito, precisa aceitar a realidade de que, após o pecado, ele se tornou imperfeito e pode er­rar. A partir dessa nova realidade, tornou-se necessário desenvolver o sentimento de culpa toda vez que fizer algo que a sabe que é errado, para que se preocupe com o outro e aprenda a reparar o mal causado, tendo assim a percepção do mal como mal.
E preciso ter consciência, porém, de que o sentimento dc culpa gera conflitos psíquicos, fazendo com que a pessoa atribua a si mesma o fato de as coisas não darem certo. A culpa ali­menta um diálogo contínuo de autopunição. E como urna corrente de pensamentos que tem no seu centro uma acusação contínua às pró­prias fraquezas, incompetências e inadequa­ções. Todo pensamento sobre uma realização positiva é ignorado, mesmo quando há elogios. Por ter urna compreensão de si marcada pela culpa e o medo, a pessoa não consegue se ver verdadeiramente. Tem potencial, talento, enfim, é maravilhosa, mas não é assim que ela se vê.
A pessoa com senso de culpa não é autêntica, revelando o que realmente é ou gostaria de ser. Em alguns casos, tenta mostrar-se segura de si quando na verdade não é. Mascara seus sentimentos ver­dadeiros porque se sente insegura e preocupada com a imagem que os outros farão dela.
O sentimento de culpa é ao mesmo tempo necessário e nocivo. Como então evitar as con­seqüências nefastas que ele provoca na estrutu­ra psíquica? Só existe uma saída para não cor­termos o risco da autodestruiçáo que o senti­mento de culpa causa na mente humana. Qual ação tem o poder de anular a culpa sem perder­mos a noção do certo e errado? Somente uma atitude tem esse poder: o perdão, ou melhor, o autoperdão. O perdão tem o poder de resgatar a dignidade perdida diante do erro. Ele dignifi­ca porque liberta da presença doentia da culpa.

Perdoar significa cessar a tortura psicológica; é o abandono das exigências perfec­cionistas e da autopunição; é o in­tegrar outra vez o que a culpa fragmentou; é recuperar o res­peito perdido, sem que fi­quem resíduos de ressenti­mento; é a possibilidade de crescer e ter autocon­fiança; é a renovação do amor-próprio e da ale­gria de viver.

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