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domingo, 11 de maio de 2014

A MÃE E O PAI SABEM TUDO


 
Para desempenhar tarefas precisamos de preparo e treinamento; estudamos anos para exercer uma profissão, fazemos cursos de culinária, corte e costura, etc. etc. Mas, para educar os filhos a única coisa que temos é a nossa própria experiência como filhos. Se cada bebê viesse com manual de instruções, seria mais fácil...
Temos também boas intenções, nossa intuição, nosso amor, sensibilidade...e isso é muita coisa! Contudo, não é o bastante, como freqüentemente constatamos.

Às vezes temos o firme propósito de fazer o que nossos pais fizeram, ou fazer justamente o oposto, e muitas vezes isso não funciona, e acabamos fazendo coisas de que não gostamos, gritamos, perdemos a paciência ou fazemos algo que depois nos arrependemos. Muitas vezes repetimos frases e ações que condenávamos em nossos pais, mas que acabam saindo automaticamente. E acabamos confusos, sem saber agir de outra forma.

Muitos pais reconhecem que, em geral, suas formas de comunicação são ineficazes. No entanto continuam a utilizá-las porque não dispõe de alternativas melhores. Educar filhos é, sem dúvida, uma tarefa complexa. Quando começamos a nos sentir "espertinhos" em uma determinada fase da criança, não demora e vem uma nova fase do seu desenvolvimento. De 2 a 5 anos ocorrem muitas mudanças. Mais a frente, de 10 a 13 anos, outras tantas. E assim somos sempre meio aprendizes, sendo que com o próximo filho pode ser tudo diferente, porque o outro filho é uma outra pessoa.

O fato é que precisamos aprender a ir crescendo junto com os nossos filhos, respeitando e acompanhando a trajetória que vai desde a dependência quase total do bebê até a crescente autonomia e independência do filho adulto.

Todas as relações humanas comportam momentos de dúvida e a relação pais e filhos não é diferente. Existem momentos de amor, prazer, alegria, raiva, mágoa, tristeza...Por isso, devemos aprender a lidar calmamente com todos eles, sem expectativa irreais. Paz e harmonia na família nunca são permanentes; precisam ser constantemente buscadas.

A comunicação é um dos fatores mais importantes. Dependendo da qualidade das mensagens que enviamos, podemos abrir ou fechar canais de comunicação. Isso vale para qualquer tipo de comunicação: pais-filhos, professor-aluno, marido-mulher, chefe-funcionário, médico-cliente, etc. É bom lembrar que os pais, ou os educadores em geral, exercem suas funções num clima de tensões e pressões de ordem econômica. Além disso, ainda temos expectativas e exigências que construímos em torno do desejo de ser um "bom pai" e/ou uma "boa mãe". E temos ainda as nossas dificuldades pessoais, que certamente influem bastante quando lidamos com os filhos.

Todos nós temos áreas de conflito, que se manifestam na maioria dos nossos relacionamentos. E como o nosso contato com os filhos é quase sempre intenso e contínuo, essas dificuldades pessoais acabam interferindo bastante. Cuidar de nós próprios é um bom caminho para melhorar nossas relações com os filhos. Na verdade, todos os nossos relacionamentos melhoram quando passamos a reconhecer abertamente nossas dificuldades.

Porém, em meio de tudo, uma coisa que não pode acontecer é a super exigência de nós mesmos como pais, pois isso gera sentimento de culpa pelas nossas imperfeições, que são inevitáveis, pelo simples fato de sermos humanos...
Liany Silva dos Santos

OS PAIS E OS ADOLESCENTES


A entrada na adolescência não é fácil nem para os pais nem para os filhos. De um dia para o outro o nosso rebento parece que sofreu uma lobotomia e é agora uma pessoa completamente diferente, com comportamentos, ideias e atitudes independentes e diferentes, que normalmente entram em choque com as da família. Já não são os meninos da mamã, dependentes, carentes da nossa atenção e carinho, aqueles que diziam que queriam ser como nós quando crescerem! Esta é uma fase de transição muitas vezes problemática e conflituosa, onde há a necessidade de uma reestruturação e adaptação à nova situação. O factor importante aqui é saber qual o papel dos pais na vida destes "quase adultos" e principalmente saber quais as necessidades dos nossos filhos nesta nova fase.

Aqui ficam algumas ideias:

  • Eles precisam de demonstrar que são diferentes de nós. Quer seja na roupa, música, adiais de vida ou politica, enfim, têm de ser do contra. Esta é uma maneira de demonstrarem e de se afirmarem como adultos, com personalidade própria e ideias próprias. Não leve a peito ou reaja violentamente às provocações deliberadas dos seus adolescentes, mais tarde ou mais cedo esta fase passa. Quanto menos você comentar ou criticar menos discussões haverá em casa.
  • Eles precisam de sentir que pertencem a uma família. Disponibilize algum tempo para passarem juntos, fazer um programa que ambos gostem ou que eles vão gostar. No caso deles se tornarem difíceis, deixe-os trazer um amigo, o programa vai parecer menos "seca"!
  • Eles precisam de saber que você estará sempre do lado deles, em qualquer que seja a situação. Apesar da grande maioria dos adolescentes pensar que já são suficientemente autónomos e que já não precisam dos pais, isto não é verdade. Nos maus momentos eles precisam de nós, para falar ou para companhia. Demonstre que estará sempre disponível para conversar e para o ajudar em qualquer altura.

  • Eles precisam de ser ouvidos. Oiça-o com atenção! Algumas das ideias e opiniões poderão ser disparatadas, perigosas, ingénuas ou mesmo sem nexo, mas é sempre importante dar-lhes a entender que as ideias e opiniões são importantes. Deixe-os falar e quando terminarem demonstre-lhes calmamente as outras possibilidades. Habitue-se a ouvir as opiniões dos seus filhos sobre as decisões importantes da família.
  • Faça-se ouvir! Os seus filhos não foram os primeiros a passar pelas dificuldades da adolescência, demonstre-lhes que você já passou por isso e com exemplos faça-lhes ver que você sabe que é uma altura difícil. Envolva também os avós nas conversas da família. São as pessoas perfeitas para contar as histórias da sua adolescência e fazer acreditar que você nem sempre foi adulta!
  • Eles precisam de saber que você os admira e os ama mesmo quando eles são impossíveis de aturar e problemáticos. Grande parte da adolescência, os seus filhos estarão envolvidos em problemas, quer seja na escola (más notas, faltas às aulas ou comportamento), no grupo de amigos (namorada, brigas com amigos e menos amigos) e na família (chegar tarde a casa e a encontros de família ou deixar de fazer as tarefas de casa). Faça-os ver o que fizeram errado, sem gritos ou discussões, mencionando as capacidades dele e dizendo que você os ama.

No fim lembre-se que este período passa!

EDUCAÇÃO PARA OS FUTUROS PAIS




Se por ventura, não chegasse à posteridade nenhum outro vestígio da nossa civilização, além de uma pilha dos nossos livros e cadernos escolares básicos, poderíamos imaginar o assombro de um futuro antiquário vendo que nessa papelada nada indicaria que os alunos que dela se serviam tivessem que vir a ser pais algum dia. "Bem, diria ele, estes cursos deviam ser para celibatários! Vejo que a atenção aqui era dada a muitas coisas, especialmente a obras e feitos legados por povos que já não existiam na época ou contemporâneos dela (o que parece indicar que ela própria nada tinha de muito bom a oferecer) mas em tudo isto não encontro nenhuma alusão à arte de educar as crianças. Esse povo não podia ser tão destituído de bom senso que no seu sistema de educação básica deixasse de dar algum espaço a um assunto que implica a mais grave das responsabilidades. E no entanto parece ser assim."
Pois não é inconcebível que se a vida ou a morte dos nossos filhos, sua ruina ou superioridade moral depende da maneira que os educamos, nossas escolas básicas não ofereçam a mínima instrução sobre essa matéria à alunos que amanhã serão pais e mães de família? Se um homem entrasse para o comércio sem a mínima noção de aritmética, riríamos da sua loucura e preveríamos as desastrosas conseqüências desse fato.
Se um homem, sem ter estudado anatomia, pegasse um bisturi de cirurgião, ficaríamos alarmados com seu gesto e aflitos pelos doentes. Mas que os pais empreendam a difícil tarefa de educar os filhos, sem nunca terem procurado saber os princípios da educação física, moral, intelectual, não nos inspira esse espanto nem piedade para com as vítimas, nesse caso as crianças.
Os pais têm a incumbência de regular, hora por hora, tudo o que diz respeito à existência dos seus descendentes, e ignoram as leis do desenvolvimento vital, que contrariam continuamente com suas ordens ou proibições. Os funestos efeitos da ignorância aparecem tanto na educação física quanto na educação moral.
A jovem mãe ou o jovem pai em luta com as primeiras dificuldades da educação estavam há apenas algunas anos atrás sentados na carteira da escola, onde lhes sobrecarregaram a memória com palavras, nomes, datas, fatos que não exercitaram de forma alguma suas capacidades de reflexão. Durante os anos escolares básicos não lhes ministraram a menor idéia de como entender uma mente infantil, ou lhes esclareceram sobre a responsabilidade de uma futura mãe ou um futuro pai de família. Terminados os estudos essa preocupação também não lhes ocorreu, seja porque concorriam no mercado de trabalho, seja porque gozavam dos prazeres da liberdade e da juventude. Quase nada sabem da natureza das emoções, pensam que existem sentimentos absolutos, ou maus ou bons, não conhecem os fenômenos mentais e as intensidades das faculdades humanas. Sendo assim não estão aptos a prever a influência que podem ter na educação de um filho, sendo por vezes sua intervenção mais prejudicial do que sua abstenção absoluta. Por motivos de receio, orgulho, indecisão, eles se opõe à algumas manifestações de atividade infantil, ao mesmo tempo natural e benéfica para a criança, prejudicando seu desenvolvimento, importando-se mais em serem obedecidos, proferindo ameaças que não executam, criando nela o medo, a hipocrisia e alienando-lhe sua afeição. Destituídos de qualquer saber teórico, incapazes de se guiarem pela observação criteriosa do que se passa no espírito da criança, os jovens pais seguem o impulso do momento, com resultados quase sempre desastrosos.
E por acaso a educação intelectual não é dirigida da mesma forma? Se é sabido que o espírito humano tem leis e que a evolução da inteligência da criança lhe está submetida, a educação não pode ser dirigida sem o conhecimento dessas leis. Sob a influência da acanhadíssima idéia que faz com que se veja nos livros a fonte da educação completa, alfabetizam as crianças muitos anos antes do necessário. O uso dos livros é suplementar, um meio indireto de aprender pelos olhos dos outros, quando o meio direto é o de ver pelos nossos próprios olhos. Em vez de compreenderem o valor dessa educação espontânea que é fruto dos nosso primeiros anos, que a observação incansável da criança, longe de ser contrariada deve ser assistida e esclarecida, obstinam-se em encher-lhe o espírito de fatos e idéias, de símbolos da ciência em vez da própria ciência, quando somente após se terem esgotado os objetos de casa, do jardim, da rua, é que deveriam apresentar o livro como fonte de novas informações. Isto porque o conhecimento imediato é preferível ao conhecimento mediato, mas também porque as palavras contidas nos livros não podem fazer surgir idéias em proporção da experiência adquirida pelas coisas.
Nosso espírito caminha do concreto para o abstrato. Entretanto, estudos abstratos como a gramática, que só deviam ser ensinados mais tarde, são ministrados no início. Quase todos os assuntos são tratados numa ordem anormal: as definições, as regras, os princípios, são enunciados em primeiro lugar, em vez de serem desenvolvidos pouco a pouco no espírito, pela observação dos casos particulares. Ainda existe o viciosos sistema de fazer o aluno decorar, querendo fazer penetrar em seu espírito coisas que ele não pode conceber, fazendo dele um recipiente para as idéias dos outros em vez de um investigador ativo das idéias e dos fatos. Passando os exames, os livros são abandonados; as noções adquiridas, na falta de serem organizadas e coordenadas, logo se perdem. Além disso, uma grande parte das coisas que se aprende é de pouco valor, uma enorme massa de conhecimentos de grande importância é totalmente desprezada. Também não se desenvolveu no aluno o poder de observar com exatidão e pensar por si próprio.
É preciso um aprendizado para fazer um sapato, construir uma casa, manobrar um navio. Será que o desenvolvimento físico e intelectual de um ser humano seja comparativamente tão mais simples que qualquer um esteja em medida de administrar esse início sem algum preparo? É indispensável conhecer os princípios básicos da fisiologia e da psicologia. Certamente se exigíssemos de todos os pais e mães conhecimentos aprofundados nessas matérias, cairíamos no absurdo. Os princípos gerais acompanhados de alguns exemplos esclarecedores seriam o suficiente. Além disso, o desenvolvimento da criança está submetido à leis que se não forem observadas acarretam danos físicos e mentais. Portanto que pais e mães não desejariam ardentemente conhecer essas leis?

FONTE:  Herbert Spencer



O DIVÓRCIO E OS FILHOS




Neste Artigo:

- Enfim, sós
- Como ficam os filhos
- Evitando estigmas
- O papel do mediador
- Veja Outros Artigos Relacionados ao Tema

A separação de um casal pode se transformar em uma odisséia, ou pode ser simplesmente um período de mudanças em que cada membro da família, adulto ou criança, tem a oportunidade de recomeçar a vida. Mas é uma empreitada de risco, uma travessia, que precisa ser bem acompanhada para não deixar seqüelas. Aqui vão algumas informações que podem ajudar na passagem para uma nova vida, quando é preciso começar de novo.
Enfim, sós

Quando um casal decide separar-se, surge uma fase de turbulência durante o período de negociação que os pares travam para decidirem como será a nova vida de cada um deles. Mesmo que o casal tenha decidido romper o vínculo de comum acordo, esta fase significa muito mais que uma simples separação. É a fase em que as vidas de ambos saem do equilíbrio anterior (bom ou ruim), como toda fase de mudança, onde tudo está fora de lugar.

Esse equilíbrio, que é buscado pelo ser humano, é chamado pelo Dr. Haim Grunspun, professor da Puc-SP, mediador, citado na Revista Catharsis, de psicologia, de homeostase, emprestando o termo da biologia. A homeostase familiar é o período em que existe uma harmonia, uma rotina, onde tudo é conhecido e mais ou menos previsível. A ruptura da homeostase familiar significa uma crise, lembra Dr. Grunspun, que pode ser superada ou, ao contrário, pode ser mantida causando sofrimentos a ambos os parceiros. Em geral, a separação é o resultado de uma seqüência de pequenas crises de desequilíbrio entre o casal. Como um vulcão, que dá vários sinais e por fim erupciona, desorganizando todo ambiente à sua volta.

Se esta fase é superada com êxito, mesmo que um dos parceiros (ou ambos) no íntimo não desejassem separar-se, ainda assim a nova vida significa uma nova rotina, uma fase diferente de um novo equilíbrio. É quando, pela segunda vez, cada um diz ‘Enfim, sós’. Mas agora, eles estão sós consigo mesmos, e não os dois (marido e mulher) sós em relação ao mundo, quando se uniram pela primeira vez.

Esse ‘enfim sós’, porém, muda bastante de figura quando o casal tem filhos. Existem questões delicadas a serem revistas, tanto do lado dos adultos quanto do lado das crianças. Além das questões resolvidas no âmbito jurídico, existem as questões emocionais. Cuidar para que, dessa batalha onde não existem vencedores nem vencidos, todos saiam sem ferimentos e seqüelas, é tarefa de um novo profissional que surge modernamente, que é o mediador familiar.

Como ficam os filhos

Um juiz, solicitado pelas partes em litígio (divergindo entre si), vai determinar as questões consideradas mais práticas, ou seja, com quem ficam os filhos, horários de visita, pensão alimentícia. Por lei, os pais devem prover alimentos aos filhos até a maioridade, oferecer-lhes educação, saúde e lazer. Tudo, ou quase tudo, está previsto em lei. O que não está previsto é como ficam os filhos emocionalmente, pois diante da separação tudo é novo, desconhecido, imprevisto e muitas vezes assustador para o adulto e para a criança.

O Dr. Louis V. Nightingale, terapeuta familiar, escreveu um livro interativo (My Parents Sill Love Me Eventhough They´re Getting Divorced, EUA) para ajudar crianças a superarem a separação dos pais, onde ele lembra a estas que:

- O divórcio não é culpa dele (do filho).

- É normal pensar e sentir algo a respeito.

- O que o filho pensa e sente tem importância.

- É natural que os pais chorem.

- Os filhos vão ser cuidados, mesmo os pais não estando juntos.

- Outras crianças experimentaram a mesma situação e tudo acabou bem.

- Há pessoas com quem eles podem conversar.

- Há coisas que as crianças podem fazer para se sentirem melhor e também os pais.

- Eles continuam a ser amados depois do divórcio dos pais.

Estudando o universo mental das crianças, o Dr. Nightingale diz o que elas pensam: não gostam da idéia de irem para outra casa, ficam incomodados com as brigas dos pais, ou quando se lembram que eles poderiam estar juntos, sentem falta do cão de estimação e das coisas que tiveram de abrir mão na mudança, e ficam em dúvida se não foram eles próprios os ‘culpados’ pela separação dos pais.

Pensando nisso, algumas associações começaram a surgir com o objetivo de assegurar às crianças e aos pais a continuidade do contato entre si depois de separados, e que esse contato tenha mais qualidade na relação pai-filho, como a Associação Pais Para Sempre - APPS, em Portugal. Segundo a APPS, todas as crianças têm direito a manter contato direto e permanente com os pais e com a família de cada um deles.

O papel do juiz é fundamental, pois de sua decisão depende a nova estruturação de vida dos pais e das crianças. Mas para que a sua decisão seja benéfica e justa para todos, é muito importante fornecer ao juiz os dados claros e precisos das necessidades e da disponibilidade de cada um dos pais, bem como das necessidades dos filhos, que devem ser levadas em conta. Questões como a guarda dos filhos, a pensão e outras também podem ser revistas mais adiante, caso o arranjo acabe se mostrando incompatível para um dos cônjuges (visitas de pais que moram em outra cidade, por exemplo, ou perda do emprego, ou outras questões de vida pessoal).

Mas as questões emocionais, que são, na verdade, o leit motif (o pano de fundo) de uma separação, não devem ser negligenciadas, ainda mais quando elas podem marcar os filhos em plena fase de desenvolvimento físico e psicológico. Essas questões devem ser acompanhadas de perto, para evitar que as crianças fiquem marcadas ou sejam discriminadas, e também para minimizar as feridas internas naturais de uma mudança brusca da separação.

Evitando estigmas

Na pressa em se retomar o modelo tradicional de família (composto por homem, mulher e filhos), que vem aos poucos se modificando e que ainda atende economicamente a uma boa parte da sociedade, inclusive a algumas religiões (casais contribuem mais com as igrejas do que pessoas isoladamente), articulistas como Chuck Durham, ainda que bem intencionados, dão declarações que podem marcar profundamente crianças e adolescentes criados apenas pelo pai ou pela mãe. Sem identificar quais são as estatísticas em que se baseia, Chuck diz: "As estatísticas revelam que 70% dos jovens em reformatórios do  governo vêm de lares sem os dois pais presentes". E continua: "Crianças numa família com uma mulher como a cabeça têm duas vezes mais probabilidade de receber serviços de saúde mental do que crianças em famílias com ambos os pais presentes. Meninas em famílias de um só pai estão em maior risco de sexualidade e casamento precoces, gravidez fora do casamento e divórcio do que as meninas de famílias com dois pais".

No entanto, estas são afirmações passíveis de grave erro. Desde a Antiguidade, são incontáveis as narrativas de crianças que eram entregues para serem criadas por terceiros, ainda bebês.

O pesquisador Jack Goody (Família e Casamento na Europa, tradução de Ana Barradas, Oeiras, Celta), por exemplo, aponta em seus estudos a existência disseminada de crianças que cresceram com suas amas de leite, ou que forem entregues a parentes (havia entrega recíproca entre parentes) para que aprendessem um ofício, quando não, entre os celtas, eram deixadas com estranhos. Os meninos e meninas nobres e nascidos livres, diz ele, eram enviados para fora de suas casas para serem criados em outro lugar até a adolescência. Faziam-se pagamentos ao pai adotivo, e não ao pai biológico, o que desvalorizava, diz Goody, e por vezes diluía a paternidade em favor de terceiros. Outras crianças, filhos de escravos, eram sumariamente separadas dos pais – e a História mostra que nem sempre predominou o modelo homem-mulher-filhos como base da sociedade, como é hoje considerada a família.

No entanto, não se têm notícias de que a maioria dessas crianças afastada dos pais tivesse forçosamente um único destino, o de se entregarem aos vícios, ou de fracassarem na escola, ou de precisarem de assistência mental ou psicológica.

Afirmar, portanto, que a separação pura e simples gera filhos com problemas é colocar de imediato, nos filhos de pais separados, o rótulo de filhos-problema, quando eles nem sequer ainda cresceram ou demonstraram quais serão suas tendências pessoais.

Os filhos de pais separados hoje são em número praticamente equiparado aos filhos de pais que vivem juntos e o rendimento escolar, o comportamento e as emoções são difíceis de distinguir entre os dois grupos.

O que desestabiliza emocionalmente os filhos, por ocasião de um divórcio dos pais, não é a separação em si, mas como ela é administrada e muito do humor dos filhos dependerá, daí por diante, do humor, da atenção e das condições do pai ou da mãe que tiver ficado com sua guarda.

Depois de ultrapassado o período de mudanças, é perfeitamente possível que a nova vida da criança seja normal e saudável, no que vai depender muito da expectativa dos adultos, não compensando a criança a todo o momento pela perda da vida anterior (com ambos os pais), impondo limites e oferecendo segurança como é feito a toda criança ‘normal’. E para auxiliar na fase de mudanças e acertos durante o processo do divórcio, o mediador pode ter um papel fundamental, atenuando conflitos e ajudando os pais a tomarem decisões.

O papel do mediador

A ABN - Formação e Consultoria Multidisciplinar, consultoria especializada em mediação de divórcios, define mediação como "Um método pelo qual uma terceira pessoa, neutra, especialmente formada, colabora com as pessoas que se encontram em situação de mudança ou mesmo de impasse, a fim de que restabeleçam a comunicação, podendo chegar a um acordo que as beneficie".

Segundo Dr. Grunspun, o mediador familiar é um profissional que auxilia casais em crise, agindo preventivamente, ou casais durante ou após uma separação, os quais buscam novas formas de família. Esta é uma profissão nova no Brasil, embora exista há tempos nos países mais avançados, onde o juiz, às vezes inclusive a pedido do casal, sugere um mediador para acompanhar o processo do divórcio. Não é o mesmo papel do advogado (embora este possa também se tornar um mediador, como um psicólogo ou outro profissional), pois o advogado cuida dos trâmites legais do divórcio, e não das questões pessoais e emocionais. Também não é o mesmo papel de um conciliador, diz Dr. Grunspun, pois na conciliação está implícito que o motivo das reuniões é para se chegar a um acordo em que o casal volte a viver junto.

O mediador não interfere no desejo do casal em separar-se, simplesmente acompanha as negociações entre os parceiros de modo a haver o mínimo de desgaste emocional possível.

O papel profissional do mediador já está previsto no Projeto de Lei 4827, de 1998, da deputada federal Zulaiê Cobra Ribeiro.

De acordo com Dr. Grunspun, o ganho para os filhos, quando o divórcio é conduzido sem maiores conflitos, é muito maior porque a mediação se dá visando principalmente o bem dos filhos e neste sentido ela é conduzida.

Assim, pais em divórcio amigável ou litigioso devem perguntar ao seu advogado, em sua comunidade ou mesmo no Fórum se ali já existe a figura do mediador, que muitas vezes trabalha como voluntário (nos países avançados, onde a aposentadoria é real, isto é muito comum).

Conclui-se que a separação em si não significa um mal ou um bem, mas o clima com que se conduz uma separação é fundamental para tudo o que vier depois. Mesmo que todos os membros da família tenham que abrir mão de suas rotinas anteriores, de algum pertence, de uma casa, existe ainda uma vida pela frente e tudo pode ser reconstruído, desta vez com mais qualidade. Isso também ajuda nas visitas do pai que não detém a guarda dos filhos e na aceitação do resto da família, que em geral fica emocionalmente sobrecarregada com o conflito dos filhos e dos netos, mas que pode ser aliviada deste fardo se a separação for bem conduzida.

Copyright © 2000 eHealth Latin America                 30 de Novembro de 2000

A ARQUEOLOGIA CONFIRMA ELLEN. G. AIRES


Desde que me tomei adventista, senti-me impressionado diante do fenômeno chamado Ellen fã. White. Tanto a profundidade exposta em seus livros quanto a facilidade com que ela trata de assuntos tio diversos que vão desde a medicina até à religião, é algo deveras surpreendente para uma mulher que não concluiu o curso primário. Contudo, isso poderia ser reputado como mero “genialismo” daquele tipo que levou Da Vinci e Pascal a aprenderem tantas coisas por autodidática e escreverem em áreas amplamente diversificadas que, como ela, também o fizeram. Algo, porém, diferencia a “frágil mulher americana” de qualquer outro gênio que a humanidade já produziu: ela escreveu o futuro. Falou de coisas “absurdas” em princípio, mas que seriam “certezas científicas” nas pesquisas concluídas depois de sua morte. Daí, a admiração da mulher-gênio vê-se obrigada a ceder lugar para uma certeza religiosa de que esta foi uma verdadeira profetisa de Deus para os tempos modernos. Sua pesquisa não se limitou a livros e revistas. Ela contava com um banco de dados que nenhum outro gênio destituído de dom profético poderia ter; ela dispunha do Espírito Santo.

De modo remissivo, este breve artigo pretende apresentar um interessante exemplo de confirmação indireta do dom profético de Ellen White conforme visto numa recente descoberta que está sacudindo o mundo da arqueologia bíblica. Trata-se de um achado relativo à conquista histórica de Davi e os primórdios da Jerusalém hebréia - algo deveras apropriado para o ano em que a cidade comemora os 50 anos da independência israelita.

 

A história bíblica — Dois textos bíblicos (II Sam. 5:1-10 e I Crôn. 11:1- 9) narram a tomada da cidade que até à conquista davídica pertencia aos jebuseus. De modo objetivo, é-nos dito que Davi partiu contra a cidade em meio aos insultos de que até mesmo coxos e cegos poderiam expulsá-lo dali — uma autêntica demonstração de auto-segurança daquela que se considerava uma fortaleza inexpugnável. Mas, em pouco tempo, a estratégica cidade montanhesa viria a ser domínio de Davi e capital de seu reino então caracterizado pela prosperidade e crescimento. Mas, como foi que Davi tomou a fortaleza? Essa pergunta toca num delicado problema de tradução que temos em II Samuel 5:8. O verso, conforme a tradução Versão Almeida Revista e Atualizada, assim traz a ordem do rei: “Todo o que está disposto a ferir os jebuseus suba pelo canal subterrâneo e fira os cegos e os coxos, a quem a alma de Davi aborrece.” Ocorre, no entanto, que a palavra hebraica tsinnor, aqui vertida por “canal subterrâneo”, é de significado duvidoso, conforme admitido pelos principais eruditos em língua semita.1    Alguns crêem que ela pode significar “gancho”, “adaga” ou até “valado”.2      Mas, a preferência por “canal” foi reforçada pela descoberta feita por Charles Warren. em 1867, de um canal d’água subterrâneo que, segundo se creu, levaria a água desde a fonte de (Gihon até dentro da cidade, Por esta entrada, portanto, Joabe teria passado com seus homens e surpreendido os Jebuseus ao surgir dentro da fortaleza tal qual fizera Ciro na conquista de Babilônia.3    Assim, a despeito de algumas vozes isoladas como do famoso arqueólogo Albrigh, que mantinha uma opinião muito pessoal sobre o modo como Davi conquistou a cidade, o consenso marcante dos eruditos era que os hebreus, conquistadores, haviam alcançado Jebus, entrando pela abertura do canal. Essa posição, aliás, pode ser encontrada em vários comentários bíblicos do livro de II Samuel que temos em português.4

 

O que dizia Ellen White?     Estranhamente ao contrário dos grandes comentários bíblicos de seu tempo e da efervescência causada pelo achado de Warren, Ellen White insistia em omitir a tão “evidente” história do ataque subterrâneo, preferindo dizer que Joabe e seus homens sitiaram a cidade. Enfatizando a posição fortificada da Tel Cananita (como se denomina em arqueologia), sua declaração, conforme publicada no livro Patriarcas e Profetas, assim reza textualmente: “[Jebus] ocupava uma posição central e elevada no território, e era protegida por inúmeras colinas.

A fim de conseguir este local, os hebreus tinham de desapossar um resto de cananeus, que mantinham uma posição fortificada nas colinas de Sião e Moriá.... Durante séculos  Jebus fora considerada inexpugnável; mas foi sitiada  e tomada pelos hebreus  sob o comando de  Joabe.”      Patriarcas e Profetas, pág. 703, grifos acrescentados.  Essa afirmação, contraditória daquilo que estava quase unanimimente convencionado pelos historiadores e teólogos, fora escrita 13 anos após a descoberta do canal por Warren. Ora, é estranho que uma mera “pesquisadora autodidata” (eufemismo usado pelos céticos para não dizerem “plagiadora”) não tenha utilizado esta conhecida informação nem seguido o rumo dos comentários nesta história particular apresentada em seu livro então recentemente publicado. Nisto, porém, ela simplesmente avançou em mais de um século as conclusões que seriam tornadas sobre a conquista da cidade e como ela ocorreu.

 

Novos achados arqueológicos

Recentes descobertas arqueológicas próximas ‘a fonte de Gihon ou fonte da Virgem (antiga principal fonte d’água de Jerusalém), têm demonstrado  que alguns dos sofisticados  sistemas de água até agora
atribuídos à conquista israelita     antecedem ao período davídico    em pelo menos oito séculos, Ellen White também apresenta a cidade como sendo um poderoso centro oitocentos anos antes da coroação de Davi, sob o comando de Melquisedeque. (Ver Patriarcas e Projetas, pág. 703.) A novidade maior, porém, surge em relação aos contornos do muro da cidade. Ocorre que alguns arqueólogos de Israel Antiquities Authoríty começam a crer que o famoso canal de    Warren (assim conhecido no
mundo acadêmico) era apenas      uma fissura natural e não uma passagem subterrânea construída
para levar água da fonte para        dentro da cidade sem o risco de expor os habitantes A mercê do inimigo. Escavações realizadas há poucos meses têm exposto um túnel que contorna o canal e faz supor que este estivesse dentro dos limites da cidade e não fora dela como até então se cria. No início, a falta de cerâmicas que pudessem ajudar na datação do sistema de água, fez pensar que este seria uma construção do período Israelita como acreditara o Dr. Yigal Shiloh, que escavou a área e limpou o sistema do túnel. Porém, em julho de 1998, vários pedaços de pote foram encontrados demonstrando que as pesadas fortalezas e muralhas em torno da fonte e o próprio sistema de águas precedem oitocentos anos ao rei Davi e já estavam dentro da cidade quando ele ali chegou. Jebus, portanto, seria pelo menos duas vezes maior do que até então se acreditava e torna-se inviável supor que Joabe alcançara a cidade invadindo-a pelo aqueduto subterrâneo que estava  totalmente dentro de seus

limites.  Assim, numa entrevista dada ao The Jerusalem Post, o Dr. Ronny Reich, que dirigiu as escavações juntamente com Eli Shuikrun, declarou enfaticamente: “Nós teremos que repensar todos os nossos conceitos acerca da Cidade de Davi que foram formados desde o século passado.”5 Isso faz do Patriarcas e Profetas o mais atualizado comentário bíblico de II Samuel até que os demais tenham tempo para retificar suas notas após as publicações científicas que já estão começando a aparecer em revistas especializadas de arqueologia. Mas esta antecipação da Sra. White não é a única. Também na Medicina, Psicologia, Pedagogia e outras áreas encontramos o mesmo processo que acabo de exemplificar.   Desta feita, é meu pensamento que hoje, mais do que nunca, os intelectuais

adventistas devem enfatizar seu apreço racional pelos escritos desta pioneira. Ela não deve substituir a Bíblia, nem mesmo tomar desnecessária a leitura de material especializado, mas, no papel de “luz menor”, ser motivo de alegria e gratidão ao povo do advento que foi agraciado com este presente do Céu, a saber, o Espírito de Profecia..

 

Referências:

 

1.     Veja por exemplo: C. F. KeiI e F. Deitzsch. Commentari on the Old Testament ir Ten Volumes. Gras Rapids: Michigan: W. E. B. Eerdmans Publishing  Company, 1966, vol. 2, pág. 316.

2.     Veja Eduard König. Hebrãisches und aramãisches Worlterbuch zum Alten Testament. Leipzig: Dietrieh’sche Verlagshuchhandlung, 1922. pãgs. 390 e 391.

3.     S.R. Driver, Notes on, the Hebrew Text and the Topography of   the Books of Samuel. Oxford: Clarendon Press. 1913, póg. 260.

4.     Veja por exemplo: António Neves de Mesquita. Estudo nos Livros de Samuel, Rio de Janeiro: RI: JIJERP, 1979. flgs. 127 e 128.

5.     The Jerusalem Post, quinta-leira, 23 de julho de 1998, pág. 4.

 

FONTE: Rodrigo P. Silva é professor de Bíblia e Filosofia da FAED, IAE - Compus 2

 

 

                                                                               

 

 

 

DESCOBERTAS ARQUEOLÓGICAS


 


 
céu ainda está escuro quando o despertador obriga todos a levantarem da cama. Alguns são rápi­dos e logo estão prontos para as atividades de mais um dia. Ou­tros, é claro, têm mais dificulda­de para acordar e, por isso, preci­sam ser estimulados com um pouco de barulho e talvez “água fria”. O ambiente é descontrai do e há muitas brincadeiras, pois a maioria são jovens de vários paises que dedicam suas férias de verão a projetos arqueológicos no Oriente Médio.

Após um reforçado desjejum, que inclui ovos, pão, leite, frutas  e até pepinos crus, todos ajudam a colocar o equipamento nas vans (conhecidas em árabe como che­ruts) que os levarão ao campo de trabalho. Há muito para ser carregado e nada pode ficar para trás. Trenas, lápis, sacos plásticos, pi­caretas, pás e etiquetas são alguns dos muitos instrumentos utilizados. Tudo é rapidamente colocado nos veículos, que logo saem levando o grupo para as atividades no sítio arqueológico. E as­sim que começa um típico dia de esca­vações no Oriente Médio.

O   trabalho em si é bastante árduo e não se assemelha em nada àquelas ver­sões cinematográficas como a Múmia ou o clássico Indiana Jones. São horas a fio debaixo de uma lona que, além dos bo­nés e chapéus, é a única proteção para um sol de 40” C em média nessa época do ano. Mas o que leva jovens e profes­sores universitários a trocarem uma bela praia no verão pelo calor desértico do Oriente Médio? A pura (porém, forte) paixão pela história da civilização.

Para esses descobridores, a aventu­ra arqueológica não está em achar te­souros perdidos ou lutar contra uma máfia para resgatar o mapa das minas do rei Salomão. O fascínio do arqueó­logo está muitas vezes na descoberta de um pequeno tablete de argila cujas poucas inscrições podem conter a cha­ve para o entendimento de algum pon­to misterioso do passado. Até mesmo uns poucos cacos de cerâmica espalhados pela terra podem revelar muitas verdades acerca da história da humanidade.

 

DESCOBERTAS — Para um especialista em ciências bíblicas ou um leigo que se devota a estudar e amar as Escrituras Sagradas, o fascínio pela arqueologia do antigo Orien­te Médio é justificado pelo fato de que foi nessa parte do mundo que ocorreu a maioria dos eventos narrados desde o Gênesis até o Apocalipse. Esse limite geográfico contempla países como Egito, Lí­bano, Síria, Jordânia, Turquia, Iraque e Israel, entre outros.

Esses territórios, como se sabe, são um verdadeiro bar­ril de pólvora envolto em conflitos armados e interven­ção internacional. A recente guerra no Iraque destruiu, talvez para sempre, relíquias que jamais serão repostas. Nem o Museu Nacional de

Bagdá escapou da destruição cau­sada pelos saques. Evidentemen­te, tal situação dificulta bastante o trabalho e até impede o avanço de algumas pesquisas de campo. Porém, mesmo enfrentando bar­reiras, a arqueologia tem se de­senvolvido tremendamente nos últimos 200 anos. As últimas des­cobertas vieram como um prêmio aos que, a despeito das dificulda­des, insistem em desenterrar a história contada na Bíblia. Confi­ra algumas delas:

 

    Os ossuárjos de Caifás e Tia­go. Segundo o costume dos dias de Cristo, após a morte de um individuo, seu corpo era enfaixado e posto numa gruta, onde permanecia por vários anos em putrefação. Depois desse período, as leis de purificação judaicas exigiam que os ossos fos­sem retirados e, somente então, “se­pultados” em caixas de pedra (os­suários), que eram devidamente de­positados em vãos dispostos nas pa­redes dos túmulos familiares. Por mais estranho que pareça, o indiví­duo só era sepultado anos depois de sua morte. Cada caixa poderia con­ter uma ou mais ossadas. No seu exterior escrevia-se o nome de quem estava depositado ali. Vários desses ossuários já foram encontra­dos. Porem, dois deles merecem destaque por sua relação direta com o Novo Testamento.

O primeiro foi descoberto em novembro de 1990 e trazia os ossos de um homem de aproximadamen­te 60 anos, cujo apelido e nome completo estavam escritos por fora em aramaico. Seu apelido era “Qafa” e seu nome completo era “Yosef bar Qayafas”, ou, em portu­guês, “Caifás” e “José filho de Cai­fás”. Trata-se de uma referência cla­ra ao sumo sacerdote que partici­pou no julgamento de Jesus. A Bí­blia não fala que ele se chamava José, mas Flávio Josefo, historiador judeu do 1o. século d.C., confirma que esse era seu primeiro nome. Caifás era o sobrenome de família.

O segundo ossuário, de acordo com as indicações de Hershel Sahnks, editor da Biblical Arqueological Review, foi ad­quirido por volta de 1980 num mercado de antiguidades de Israel. Todavia, so­mente agora foi trazido a público, graças à perita observação de André Lamaire, um especialis­ta em inscrições antigas. Sua atenção foi chamada para o fato de que o nome do indivíduo se­pultado (cujos ossos não se en­contram mais na caixa) trazia urna inovação em relação aos exemplares até então encontrados.

E que todos os anteriores geralmente continham o nome do morto e, nalguns casos, sua filiação paterna ou sobreno­me, como no caso de “José filho de Cai­fás”. Esse ossuário acrescentava algo ao nome do falecido, que era Tiago. O tex­to escrito em araniaico do 1o. século diz:

“Tiago, filho de José, irmão de Jesus”. Muitos especialistas se mostram reticentes em considerar esse Tia­go e esse Jesus os mesmos perso­nagens citados na Bíblia (o que faria do achado a mais antiga referência extrabíblica ao Sal­vador), O próprio Lamaire estima que haveria pelo menos 20 Tiagos filhos de José dentre a população de 80 mil pessoas que havia em Jerusalém. Em toda a Palestina, esse número seria ainda maior, pois ambos os nomes eram muito comuns naquele tempo. Contudo, ele mesmo admite que a referência “irmão de Je­sus” é, no mínimo, intrigante. As coincidências começam a se afunilar demais quando se trata de um Tiago, filho de José e irmão de Jesus. Quais as possibilidades matemáticas de en­contrar duas pessoas com essas mes­mas características numa pequena al­deia de Israel? Além disso, é histori­camente insustentável que o nome de um irmão configure num ossuário ao lado do nome do pai, a menos que o irmão seja muito famoso ao ponto de inovar a tradição corrente.

“O ossuário é original; e a primei­ra parte da inscrição, ‘Tiago, filho de José’, é autêntica; mas a segunda me­tade da inscrição, ‘irmão de Jesus’, é uma imitação pobremente executada”, avalia Rochelle Altman, especia­lista em escritas antigas baseadas na fonética. Robert Eisenman, autor de um livro sobre Tiago e professor de arqueologia e religiões do Oriente Médio, acha que a caixa é perfeita de­mais para ser original.

Seja como for, esse achado, infe­lizmente danificado durante uma viagem para a América do Norte, ainda promete muita discussão nos círculos acadêmicos. Pelo menos dois livros dicutindo as implicações da descoberta já foram lançados nos Estados Unidos.

• A inscrição de Joás. Escrita em paleohebraico, essa placa de pedra retangular apresenta uma referência de 10 a 15 linhas aos reparos do Templo de Salomão. Se a peça, que ainda está sendo estudada pelos ar­queólogos, se mostrar autêntica, ela será a mais forte evidência extrabí­blica a confirmar algumas porções do Antigo Testamento, especialmen­te do livro de 2o. Reis.

Segundo o rabino Yaakov Meidan, especialista do Gush Etzion Institute, o texto hebraico da pedra possui uma forma fenícia de escrita que apontaria sua data de produção para algo em tor­no do 9o. século a.C. Detalhes da inscri­ção parecem referir-se aos reparos do templo feitos durante o reinado de Joás, que governou a Judéia de 836 a 798 a.C. Um fato que chamou a atenção nos exames preliminares foi a presença de salpicos de ouro fundido na superfície de pedra, os  quais poderiam ter sido causados por um incêndio como o que destruiu o templo em 586 a.C.

Não se tem ao certo o histórico de onde essa pedra foi escavada, o que aumenta a suspeita de fraude. Por outro lado, há sérias evidências  de sua autenticidade, e muitos especialistas acreditam poder se tratar de um grandioso achado da arqueologia. O grande problema, no  caso específico dessa inscrição, é que ela esbarra num problema político do Oriente Médio. Há séculos judeus e palestinos disputam o território de Jerusaçém e especificamente o chamado “Monte do Templo”, que, desdeo ano 691, abriga (no lugar do antigo templo judeu) o segundo maior edifício de oração islâmico do mundo, a Mesquita Al-Aksa. Nas proximidades, fica o Muro Ocidental ou das Lamentações, o locar mais sagrado do judaísmo, pois pois é único remanescente do segundo templo ou Templo de Zorobabel, que foi destruído pelos romanos no ano 70 dc.

Os palestinos (apoiados por todos os grupos árabes do Oriente) negam que aquele tenha sido o lugar autêntico do antigo Templo de Salomão, por isso faria deles os invasores de um local sagrado mais antigo que sua mesquita. Assim, as implicações políticas dessa evidência seriam bastante complexas, especialmente no tenso cenário que envolve Israel e o mundo árabe.

O tijolo de Babilônia. Bem longe do conflito e das tensões do Orien­te Médio, um impor­tante achado teve sua história localizada aqui mesmo no Brasil. Tra­ta-se de um tijolo babi­lônico com inscrições cuneiformes que con­firmam a existência de Nabucodonosor, rei de Babilônia, o qual é di­versas vezes cidado na Bíblia, especialmente no livro de Daniel.

Até meados de 1890, Nabucodonosor e até a própria cidade de Babilônia tinham sua existência negada por uma série de especialistas céticos. O livro de Daniel, nesse contexto, seria apenas uma novela judaica produzi­da no 2o. século a.C. Nada de seu en­redo seria de fato uma história real. Essa conclusão, no entanto, tornou-se sem sentido quando Babilônia foi finalmente desenterrada pela pá dos arqueólogos. Os alicerces e artefatos que surgiam testemunhavam clara­mente da suntuosidade do que havia sido aquele vasto reino. Em centenas de tijolos com escrita cuneiforme, o nome do principal rei e edificador da grande cidade aparecia com tremen­do destaque, dizendo: “Eu sou Na­bucodonosor, rei de Babilônia; eu er­gui este edifício”.

Tijolos contendo essa sentença e outras similares, podem ser vistos nos principais museus de arqueologia do mundo e um desses tijolos está hoje no Brasil em permanente exposição no Museu Paulo Bork de arqueologia que pertence ao Centro Universitário Adventista (Unasp), em Engenheiro Coelho, interior de São Paulo.

A aquisição do artefato foi, no mí­nimo, curiosa. Um brasileiro que tra­balhou no Iraque por muitos anos trouxe a pedra das ruínas como lem­brança dada por um soldado iraquiano. Depois de algum tempo, supôs que a mesma estaria melhor nas mãos de seu amigo Paulo Barbosa, que ex-professor do ensino médio numa rede particular de Vitória, ES. A partir de então, Barbosa passou a utilizar o ob­jeto como ilustração em aulas de reli­gião e história.

O tijolo possuia símbolos antigos dispostos em três linhas paralelas muito bem desenhadas que conti­nham uma inscrição do 6o. século a.C. Porém, não se sabia o significa­do do conteúdo, situação que perdu­rou por quase vinte anos, até à apo­sentadoria de Barbosa.

Mudando-se para a vizinhança do Unasp, Barbosa teve a oportuni­dade de apresentar o objeto a um dos curadores do museu arqueoló­gico, que, utilizando dicionários e léxicos especializados, traduziu o texto e encontrou claramente a ex­pressão “Eu sou Nabucodonosor, rei de Babilônia”. Confirmada a au­tenticidade do artefato, Barbosa re­solveu doá-lo ao museu, onde pode ser visto ao lado de vários outros objetos que fazem parte da única coleção pública de arqueologia bí­blica da América do Sul.

Apesar de todas as dificuldades, o trabalho dos arqueólogos não pode parar. E a cada ano, especial­mente no verão, as equipes partem para novas expedições, na esperan­ça de que da terra saia outra novi­dade acerca de um passado que diz muito sobre quem somos e para onde caminha a humanidade.

 

Sinais dos Tempos Julho-Agosto de 2003

A ALIANÇA DE DEUS




Descobertas arqueológicas revelam a beleza do concerto que Deus estabelece com Seu povo

 

“A vontade divina é abençoar e fazer prosperar Seus filhos de maneira maravilhosa”

 

Reinaldo W. Siqueira, Ph.D., em Antigo Testamento, pela Andrews University (E.U.A) é professor de Línguas e Exegese Bíblicas e de Teologia do AT no Seminário Latino Americano de Teologia, em Engenheiro Coelho, SP.

Um dos conceitos fundamentais do Antigo Testamento é o de aliança, ou seja, um concerto entre Deus e Is­rael, ou entre Deus e um ser huma­no. Não se pode encontrar nenhum paralelo desse conceito bíblico entre as crenças religiosas do mundo antigo. Enquanto as religiões antigas criam que os homens descendiam “naturalmen­te” dos deuses que eles adoravam, a Bíblia apre­senta uma idéia totalmente singular sobre o re­lacionamento entre a Divindade e a humanida­de — a aliança ou concerto. Para a Bíblia, religião não é simplesmente a crença num conjunto de doutrinas ou idéias. É, sobretudo, um relaciona­mento profundo e verdadeiro com Deus.

Uma das descobertas arqueológicas do mundo da Bíblia que mais têm contribuído para a com­preensão do conceito bíblico da aliança é a dos an­tigos tratados políticos e sociais do Antigo Orien­te Médio, em especial os do tipo suserano-vassalo. Este tipo de tratado regulamentava o relaciona­mento entre um rei poderoso (o suserano) e os reis das nações vizinhas que lhe eram sujeitos (os vassalos). Na sua estrutura, os tratados que mais se aproximam do conceito bíblico de aliança fo­ram encontrados no antigo Império Hitita.

Primeiro, eles começavam com um Titulário, ou seja, uma introdução ao orador, na qual se identifica o autor do tratado, o suserano, seus títulos, atributos e ocasionalmente sua genealo­gia. Semelhante Titulário pode ser observado em Êxodo 20:1, onde Yahweh, o único Deus, é apresentado como o Orador e Autor do tratado.

Em segundo lugar, seguia-se um Prólogo Histórico, no qual se fazia um relato dos benefícios feitos pelo suserano a fa­vor do vassalo, os quais serviam de base para o tratado. Em Exodo 20:2, encontramos um Prólogo His­tórico que enfatiza qual era a base da aliança que Deus estava propondo a Israel: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servi­dão” — ou seja, a salvação é a base da aliança. Deus primeiro salvou os israelitas e depois lhes propôs uma aliança. Isso é constante nas Escrituras.

Terceiro, após o Prólogo Histórico se seguia a Lista de Estipulações do tratado, na qual eram declaradas em detalhes as obrigações im­postas ao vassalo. Exigia-se dele lealdade abso­luta ao suserano e obediência às estipulações apresentadas. No Concerto do Sinai, também, após a apresentação do ato redentor divino que fundamentava a aliança, segue-se a lista de estipulações, na forma de leis e mandamentos que deveriam ser guardados pelos israelitas (veja Exo. 20:3-31; 18; 34:10; Lev. 25:55).

Quarto, após a Lista de Estipulações vinha a Lista de Testemunhas. Os deuses de ambas as partes, do suserano e do vassalo, eram in­vocados como testemunhas do tratado que es­tava sendo firmado e deveriam zelar sobre o cumprimento do mesmo, punindo o infrator. No Antigo Testamento, não se faz nenhum apelo a deus algum para servir de testemunha, pois só existe um único Deus, que, no caso, era um dos contratantes do tratado de aliança.

Quinto, após a Lista de Testemunhas vinha a se­ção das Bênçãos e Maldições, na qual se descrevia aquilo que seria feito ao vassalo, dependendo de sua obediência ou desobediência às estipulações do tratado. A linguagem era de “vida e morte”, de “bênção e maldição”. Na Aliança Sinaítica encon­tramos também a seção de Bênçãos e Maldições, em Levítico 26 e Deuteronômjo 27 e 28, onde se enfatiza que a vontade divina é abençoar e fazer prosperar Seus filhos de maneira maravilhosa.

Finalmente, a sexta e última parte do tratado suserano-vassalo hitita apresentava uma cláusula que requeria leitura periódica do tratado, por parte do vassa­lo, para que ele não se es­quecesse dele. Ocasional­mente eram feitos também requerimentos para que o tratado fosse depositado e preservado em um lugar segu­ro. Este último item nos ensina sobre a reverência e cuidado que devemos ter para com a Palavra de Deus e a necessidade de estu­da-la e reestudá-la sempre.

 

Fonte: Sinais dos Tempo Setembro- Outubro / 2001

OS FILISTEUS




Potência militar rival de Israel na antiguidade foi varrida da História em cumprimento ao oráculo divino

 

“A história bíblica nos fala que a vitória de Israel sobre os poderosos filisteus veio pelo poder de Deus”

 

Reinaldo W. Siqueira, Ph.D., em Antigo Testamento pela Andrews University (EUA), é professor de Línguas e Exegese Bíblicas e de Teologia do AT no Seminário Latino-Americano de Teologia em Engenheiro Coelho, SP.

 

 
Um dos povos do Antigo Oriente Médio mais citados na Bíblia são os filisteus. Referências a eles apare­cem desde os dias de Abrãao e Isa­que até o tempo do exílio babilônico, totali­zando assim um período de cerca de 1.500 anos de contato e convivência com o povo de Deus. Mas quem eram os filisteus? Quais eram suas origens?  Eles ainda existem ou desapareceram do cenário da história?

O  texto bíblico traça a origem dos filisteus a um dos povos originários do Egito, os “cas­luim”, que eram descendentes de Mizraim, fi­lho de Cão, um dos três filhos de Noé. Apa­rentemente, uma parte dos filisteus teria se es­tabelecido na região de Canaã desde os dias dos patriarcas, enquanto a maioria deles teria saído da região do Egito e então migrado para a região da ilha de Creta.

O  grupo de filisteus que aparece em Gênesis, nos dias de Abraão e Isaque, é apresentado no texto bíblico como relativamente pequeno, ha­bitando uma pequena região localizada ao sudoeste de Canaã, dominada pela cidade de Ge­rar (próximo à cidade de Gaza). Esses fílisteus tinham pouco poderio militar. Um quadro dife­rente, no entanto, e apresentado dos filisteus do período de juizes (começando com Sangar) e dos primeiros reis de Israel (Saul e Davi), ou seja, por volta do ano de 1300 a 1000 a.C. Os fi­listeus desse tempo formavam uma poderosa liga militar envolvendo cinco cidades (Asdode, Gaza, Ascalorn, Gate e Ecrom) que dominavam toda a região sudoeste de Canaã, fazendo fron­teira com o Egito. Eles se tornaram um poderio respeitado na região e oprimiam severamente a Israel. Uma idéia da força militar dos filisteus desse tempo aparece em 1a. Samuel 13:5, onde se descreve o exército filisteu corno tendo “trinta mil carros, e seis mil cavaleiros e povo em multidão como a areia do mar”. Flecheiros faziam parte também desse exército.

Detalhes da armadura e dos equipamentos de guerra de um solda­do filisteu aparecem na descrição do aparato militar de Golias: capacete de bronze, couraça de escamas, caneleiras de bronze, dardo de bronze, lança com uma haste, escudo e espa­da ( 1o.   Sam. 17:5-7, 50 e 51). Esse aparato mi­litar corresponde detalhadamente ao aparato típico dos guerreiros da região do mar Egeu.

Devido à proximidade das ilhas do Mar Egeu e da própria Grécia, os filisteus teriam se associa­do aos povos dessa região, assumindo muito de seus costumes e se integrado então ao grupo cha­mado de “os Povos do Mar”. No final do 2o. mi­lênio a.C.. esses povos varreram a região do An­tigo Oriente Médio com grande poder. Docu­mentos da época (principalmente do Egito) e re­centes escavações arqueológicas evidenciam suas poderosas conquistas. Muitas cidades foram en­tão totalmente destruídas para serem logo reconstruídas por um povo de nova cultura. Os israelitas, que recentemente haviam invadido e do­minado parte da região de Canaã, tiveram de se defrontar com um extraordinário poder que ha­via abalado as nações mais poderosas da época.

A história bíblica nos fala que a vitória de Israel sobre os poderosos Filisteus veio, no en­tanto, não por sua capacidade militar, mas sim pelo poder de Deus. Yahweh Se manifestava para ajudar e livrar o Seu povo, quando este O buscava sinceramente. Finalmente, Davi não só venceu o grande campeão filisteu, o gigante Golias, mas pôs um fim sobre a supremacia filistéia sobre Israel.

Referências aos filisteus aparecem nova mente nos tempos dos reis Josafá, Jeorão, Uzias, Acaz e Ezequias, ou seja, de cerca de 900 a 700 a.C. As últimas referências aos filis­teus na Bíblia aparecem no tempo do exílio ba­bilônico e do rei Nahucodonosor, por volta de 600-570 a.C. O mesmo ocorre nos documen­tos históricos do Antigo Oriente Médio.

A partir do Império Medo-Persa (539 a.C.), os filisteus tinham de­saparecido do cenário da Histó­ria de uma vez por todas, cum­prindo-se assim as palavras da profecia: “Porque Gaza será desamparada, e Asquelom ficará deserta; Asdode, ao meio-dia, será expulsa, e Ecrom, desarraigada. Ai dos que habitam no litoral, do povo dos quereítas [povo de Creta]! A palavra do Senhor será contra vós outros, o Canaã, terra dos filisteus, e Eu vos farei des­truir, até que não haja um morador sequer (Sofonias 2:4 e 5).

 
Fonte: Sinais dos Tempos Maio-Junho/2000

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